LIVRO CCC_PRÉMIO INTERNACIONAL nos EUROPEAN DESIGN AWARDS

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O livro CCC foi premiado no âmbito dos European Design Awards (ED-Awards) de 2014 na categoria de catálogos de arte com um “Silver Award”.


Em 2012, realizou-se na Fábrica Asa, em Guimarães, a exposição COLLECTING COLLECTIONS AND CONCEPTS, UMA VIAGEM ICONOCLASTA POR COLEÇÕES DE COISAS EM FORMA DE ASSIM.  Posteriormente, desenvolveu-se ao longo de vários meses este livro que funciona como um elemento autónomo do projecto e não como uma mera ilustração da exposição prévia. O 
design gráfico do livro foi concebido em conjunto por Paulo Mendes, comissário do projecto, e pelo estúdio de design R2. 

 

CCC PROJETO LIVRO

Coordenação editorial
Paulo Mendes + Sandra Vieira Jürgens

Design livro
R2 + Paulo Mendes


Especificidades Técnicas
Catálogo no formato 32 x 24 cm com 636 páginas a cor e preto e branco. Versão bilingue _ Português /  Inglês

Editores
FCG _ Fundação Cidade de Guimarães + IN.TRANSIT editions

O livro do projeto CCC regista a exposição mas ultrapassa essa mera documentação de um evento temporário para se tornar num elemento autónomo deste projecto. Apresenta em mais de 600 páginas e 1000 imagens todo o processo expositivo, constituindo também ele uma abordagem à ideia expandida de colecção. Inclui um vasto conjunto de ensaios inéditos sobre esta temática e suas ramificações, mais técnicas ou mais biográficas, numa reflexão crítica sobre o tema. O coletivo de autores apresentados, aproximadamente vinte cinco, abrange diferentes áreas da criação, visual e escrita.


CCC BOOK PROJECT

Com a participação escrita de / with texts by _ >
André Lamas Leite _ Bárbara Coutinho _ Bartomeu Marí _ David Santos _ Emília Tavares _ Filipe Pinto _ Idalina Conde _ Inês Moreira _ João Pinharanda _ João Urbano _ Jorge Barreto Xavier _ Jorge dos Reis _ Júlia de Carvalho Hansen _ Leonor Sá _ Luís Serpa _ Manuel Borja-Villel _ Mariana Jacob Teixeira _ Mário Moura _ Pedro Moura _ Pedro Portugal _ Raquel Henriques da Silva _ Rossana Mendes Fonseca _ Rui Catalão _ Sandra Vieira Jürgens

Projetos Visuais originais para o livro / Special visual projects for the book _>

André Alves _ André Cepeda _ Ângelo Ferreira de Sousa Artur Moreira _ Barbara says… _ Fabrizio Matos _ Fernando Brízio _Franscisco Queirós _ Hugo Canoilas _ Hugo Soares _ Israel Pimenta _ João Gigante _ João Marçal Jorge dos Reis _ José Almeida Pereira _ Lara Torres _ Luís Alegre _ Mafalda Santos _ Pedro Bandeira Pedro Infante _ R2 _ Renato Ferrão _ Susana Gaudêncio

 

CCC _ EXHIBITION PROJECT

[Collecting Collections and Concepts, uma viagem iconoclasta por coleções de coisas em forma de assim]

Artistas convidados / Guest artists > 
André Alves (pt) / António Caramelo (pt) / António Rego (pt) / Arlindo Silva (pt) / Chen Chieh-Jen (tw) / Cristina Mateus (pt) / Eduardo Matos (pt) / Fernando Brízio (pt) / Fernando José Pereira (pt) / Harun Farocki (de) / Hugo Canoilas (pt) / Jack Strange (uk) / João Marçal (pt) / João Maria Gusmão + Pedro Paiva (pt) / João Tabarra (pt) / Luís Ribeiro (pt) / Luiza Baldan (br) / Mafalda Santos (pt) / Manuel Santos Maia (pt) / Miguel Leal (pt) / Miguel Palma (pt) / Nuno Ramalho (pt) / Nuno Sousa Vieira (pt) / Paulo Catrica (pt) / Pedro Cabral Santo (pt) / Pedro Infante (pt) / Pierre Candide (fr) / Rita Castro Neves (pt) / Rui Manuel Vieira (pt) / Vanessa Billy (uk)

e ainda obras selecionadas a partir das coleções de / and works selected from the collections >

Alexandre Estrela (pt) / André Gomes (pt) / António Júlio Duarte (pt) / António Olaio (pt) / António Sena da Silva (pt) / Bruce Nauman (usa) / Catarina Botelho (pt) / Carlos Afonso Dias (pt) / Cildo Meireles (br) / Christian Boltanski (fr) / Dennis Oppenheim (usa) / Didier Fiuza Faustino (fr) / Douglas Gordon (uk) / Eberhard Havekost (de) / Eduardo Gageiro (pt) /Eduardo Harrington Sena (pt) / Erwin Wurm (at) / Fernando Brito (pt) / Fernando Lanhas (pt) / Fernando Lemos (pt) / Gérard Castello-Lopes (pt) / Hans-Peter Feldmann (de) / Ian Wallace (uk) / Jac Leirner (br) / Joan Fontcuberta (es) / João Paulo Feliciano (pt) / João Pedro Vale (pt) / João Penalva (pt) / João Tabarra (pt) / John Baldessari (usa) / José de Guimarães (pt) / José Dias Coelho (pt) / Jorge Queiróz (pt) / Júlio Pomar (pt) / Lee Friedlander (usa) / Leonor Antunes (pt) / Louise Lawler (usa) / Manuel Alvess (pt) / Margarida Correia (pt) / Marina Abramovic (rs) / Miguel Palma (pt) / On Kawara (jp) / Pedro Cabrita Reis (pt) / Pedro Tudela (pt) / Peter Piller (de) / Raymond Hains (fr) / Richard Hamilton (uk) e Dieter Roth (de) / Rodney Graham (ca) / Ryan Gander (uk) / Sharon Lockhart (usa) / Stan Douglas (ca) / Stephen Shore (usa) / Richard Prince (usa) / Victor Palla (pt) / William Eggleston (usa)


Projetos Especiais _ inauguração / Special projects _ opening >

A kills B (pt) I Jonny Trunk (uk) I Maile Colbert (pt) I Marçal dos Campos (pt) I Miguel Lucas Mendes (pt)
+
Mariana Pestana (pt) com o projecto Copos de Coleção > copos desenhados por Filipe Alarcão I Tiago Almeida I Rita Botelho I Gonçalo Campos I Daniel Caramelo I Catarina Carreiras I Mafalda Fernandes I Manamana I Hugo Passos I The Home Project I Marco Sousa Santos I Paulo Sellmayer I Ricardo Vilas-Boas


Projetos Especiais _ espaço público / Special projects _ Public space >

P28 _ Contentores _ Carlito Carvalhosa (br)
Projetos Especiais _ edições / Special projects _ editions _>

Almanaque por Sebastião Rodrigues (pt), Acme Novelty Library por Chris Ware (usa), Old News por artistas internacionais convidados (dnk), Permanent Food, Charley e Toilet Paper por Maurizio Cattelan (it), Paulo de Cantos (pt), Point d’ironie (fr) por artistas internacionais convidados e ainda outras edições e múltiplos.


Obras de arte contemporânea das seguintes coleções / Works from contemporary art collections >

Coleções institucionais / Institutional collections > BesArt – Coleção Banco Espírito Santo, Coleção da Caixa Geral de Depósitos, Coleção de Arte Fundação EDP, Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, MNAC – Museu do Chiado, Museu do Neo-Realismo


e ainda a colaboração dos seguinte museus / and also the collaboration of the following museums >

Museu de História Natural da U.P., Museu Nacional da Imprensa, Museu de Polícia Judiciária

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LANÇAMENTO DO CATÁLOGO_“Densidade” de Miguel Palma e “Sometimes the best way to find something is to move away from it” de Pedro dos Reis

A inauguração das exposições “Densidade” de Miguel Palma e “Sometimes the best way to find something is to move away from it” de Pedro dos Reis está agendada para dia 26 de Novembro, pelas 18 horas, na Galeria de Arte Cinemática Solar, de Vila do Conde.

As duas exposições serão acompanhadas por um catálogo que mais não faz do que alargar o encontro com as obras em exposição e documentar cada projeto, com processos de diálogo que estimularam a conversa e a escrita em torno da experiência da arte, aqui numa rara conjunção de escultura, fotografia, e objetos cinemáticos.

Durante a inauguração será apresentado este catálogo da exposição que é coordenado por Sandra Vieira Jürgens, e integra textos da curadora e de Nuno Rodrigues, bem como uma conversa entre os dois artistas, Miguel Palma e Pedro dos Reis. O design do catálogo é da autoria do artista e designer Luís Alegre e as fotografias do fotógrafo Rui Pinheiro.

PEDRO AMARAL: Bad Boy Painting Comics

Pedro Amaral, Andy Warhol, 2007.

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Pedro Amaral: BAD BOY PAINTING COMICS», Galeria Quadrado Azul, Porto, 2007).


A pintura é a forma de intervenção de Pedro Amaral. Nas suas poderosas montagens, tão apelativas como politicamente comprometidas, o artista segue a tradição da prática de apropriação de materiais visuais, compondo fragmentos seleccionados a partir de variadas fontes. Os seus trabalhos combinam cenas figurativas retiradas de contextos como a banda desenhada, a publicidade, livros, revistas e enciclopédias ilustradas.

Com frequência, coloca lado-a-lado elementos de regiões e culturas diferentes, desde a americana, chinesa, indiana, passando pela “russo-soviética”, até à japonesa. É o caso da série de três telas “Indoor/Outdoor” (2001/2005) em que se reproduzem, por exemplo, cartazes de filmes da indústria americana, como James Bond, e de películas comerciais indianas “Made in Bollywood”, bem como imagens de danças havaianas ilustradas nas máquinas de flippers, e vinhetas da banda desenhada japonesa Manga, entre outros. Também, no tríptico composto por “Wrestling Palace”; “Sushi Bar/Karaoke Device”, “Love Hotel”, alude à sociedade japonesa e aos estereótipos que formámos dessa cultura. Nela, Pedro Amaral retrata a noite na grande metrópole que é Tóquio, apresentando formas de entretenimento, conjugando hábitos tradicionais (como as geishas e o popular combate de luta Sumo) e modernos.

Para além de os fragmentos utilizados preencherem a totalidade da tela, em termos espaciais, eles também atravessam diferentes períodos da história. Assim, várias parcelas da civilização remetem-nos para a questão da passagem do tempo, como se pode ver em trabalhos como “Beyond Planet Earth” (2006). Aqui, o espectador é conduzido ao longo de uma série de perspectivas sobre o percurso da humanidade, incluindo a aventura espacial, actividades produtivas reproduzindo um esquimó a pescar, um índio a caçar e cenas do quotidiano agrícola africano, americano e canadiano.

Embora estas fontes icónicas tenham frequentemente linguagens figurativas diferentes — o desenho pode ser quer realista quer estilizado, quer monocromático quer policromático —, Pedro Amaral associa-as, com aparente facilidade, de modo a formar uma homogénea construção de significados. A intenção irónica e crítica, constante nos seus trabalhos, consegue-se precisamente através do modo como realiza a montagem dos múltiplos fragmentos da iconografia da sociedade moderna e antiga.

Amaral tanto dispõe as imagens como se de vinhetas de banda desenhada se tratassem como justapõe ou sobrepõe os desenhos nas suas composições para criar uma visão panorâmica sobre determinados temas.

Na realidade, o seu percurso iniciou-se com a ilustração nos anos 80, o que veio a marcar o carácter crítico inerente ao conjunto da sua obra. E para além dos autores da ilustração que o influenciaram (Jack Kirby, Chester Gould, Jije, Hergé e ainda Robert Crumb e Charles Burns), interessou-se, desde cedo, pelos artistas da Pop Art.

Reconhecida pelo poder das imagens e pelo seu carácter sedutor, a arte Pop é uma base de trabalho para Pedro Amaral que nela procura a ambivalência do seu discurso. O artista combina o prazer visual, a crítica e subversão presentes nesta estética, sem descurar a difusão demasiado comercial e totalizadora também características da Pop. Explora, assim, as contradições do movimento, ao acentuar a tensão entre o cariz apelativo, sedutor e comercial da sua imagem e a provocação implícita no tratamento de alguns temas, como a relação entre a cultura e o comércio. À semelhança do que alguns artistas Pop fizeram, Pedro Amaral apropria-se de imagens, ilustrações, elementos gráficos já existentes para formar novas leituras. Em alguns das suas telas, com a ajuda de retroprojectores, redesenha motivos centrais ou simplesmente detalhes da produção de autores como Roy Lichtenstein, Richard Hamilton, Erró e Robert Indiana. Exemplo desta rede de apropriações é a sua obra “Templo de Song Lai” que, na parte superior, apresenta uma imagem de um trabalho que o próprio Erró já tinha “adoptado”.

Continuar a ler em: SVJ_Pedro Amaral_Quadrado Azul

JOÃO FONTE SANTA: Aprendiz Preguiçoso


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «A questão da singularidade», João Fonte Santa: O Aprendiz Preguiçoso, Centro de Artes, Festival Sonda, 2007).


A exposição de João Fonte Santa intitulada “Aprendiz Preguiçoso” reúne um conjunto de trabalhos da produção artística do autor, numa iniciativa que constitui uma visão retrospectiva sobre registos que definiram um percurso e foram marcantes. Facto interessante, é que não sendo exaustiva em relação à quantidade de trabalhos expostos, nem por isso ficaram restringidas as possibilidades de conhecer um certo número de princípios que norteiam o seu exercício pictórico. Mais, na medida em que expõe um núcleo de obras de pendor autobiográfico, estas revelam uma zona reservada, a sua história particular, o seu modo próprio de estar, entender e fazer arte. O título desta exposição é bastante evocativo, na medida em que faz apelo a um percurso criativo e de aprendizagem que o próprio artista vem construindo com liberdade, independência e autonomia; sobretudo à medida do seu tempo, e dando espaço de existência a cada circunstância, cada experiência pessoal vivida em estreito contacto com o mundo envolvente.

Formado em pintura, João Fonte Santa desenvolveu ao longo dos anos 80 e 90 um percurso associado à realização e publicação de trabalhos gráficos, ilustrações e banda desenhada em diferentes projectos editoriais. Essas influências são uma das marcas comummente assinaladas em relação às influências formais, estilísticas e iconográficas do seu trabalho, mas não resumem uma via de investigação artística marcada pelo contínuo estabelecimento de correspondências em relação a muitos outros âmbitos e territórios do espaço cultural.

Com efeito, outras áreas da arte se vão inscrevendo no seu campo de actuação: Fonte Santa integra e desenvolve relações de associação e apropriação muito produtivas com a literatura, o cinema e a música, que atravessam a sua obra. Da sua vasta produção artística fazem parte trabalhos onde questiona as determinações morais e as normas de aceitação social a partir da cristalização de referências de autores “malditos” (caso de William S. Burroughs), da envolvência underground e da referência à cultura punk, e trabalhos de dimensão política, nos quais tece abordagens a situações da realidade social, cultural e histórica, assinalando operações e princípios que regulam o curso da sociedade humana. “Guggenheim Starship” (2002), “Destruição De Luxe” (2003) e “Como ser um milionário” (2005) são alguns dos trabalhos em que a referência à globalização económica, às potências globais, à estratégia e domínio militar e à sua tecnologia são questões em destaque.

Mas como referimos, com esta exposição João Fonte Santa mostra-nos uma série de trabalhos em que a expressão autobiográfica ganha relevo. Trata-se de um grupo de pinturas que nos remetem directamente para momentos da sua história pessoal.

Nesses trabalhos exibem-se memórias individuais, que possibilitam um itinerário documental sobre situações reveladoras de uma determinada experiência de percepção do tempo, do contexto e da realidade cultural de um ciclo de vida. Nelas observamos um arquivo de imagens de grande formato que retratam as casas habitadas pelo artista, reuniões de amigos e episódios vários. O que assinalam concisamente tem a efemeridade das anotações fugazes que devem posteriormente servir à memória:

Travessa do Alcaide, 1998: “Vou sair da Travessa do Alcaide. Aproveitando a casa ficar vazia, resolvi fazer uma festa-venda de Natal”

Janeiro de 99, Travessa das Almas: “Desde que se acabou o gás no aquecedor que está cada vez mais frio. Salvam-nos os jantares com os colegas da Teresa”.

Apresentando-se como fragmentos de histórias pessoais, o que é que constitui efectivamente esta série de trabalhos de João Fonte Santa?   (…)

Continuar a ler em: SVJ_Fonte Santa_Aprendiz Preguiçoso

Pedro Gomes: Intervenção no Museu Nacional de Arte Antiga

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «A posse do objecto raro». In: Ter, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, 2005, pp. 45-48 [Catálogo]).

Pedro Gomes faz do desenho o meio preferencial para desenvolver uma linha de trabalho assente nos paradigmas de representação visual e no estatuto codificado da imagem. Em trabalhos como os da série Habitat, usando a esferográfica e um registo de enovelados, recriou paisagens urbanas a partir de ampliações fotográficas. O processo de realização manual consistia em abstrair, reduzir e estilizar os contornos e as formas do visível para exercer desse modo a passagem da imagem da realidade ao símbolo. O resultado vinha intensificar a condição anónima e indiferenciada daquelas paisagens, e pelo recurso à sobreposição de diferentes manchas de cor e à ideia de negativo, modos de fabrico empregados na reproductibilidade mecânica, Pedro Gomes evidenciava a sua condição de imagem reproduzida.

Noutras séries, em Paraíso ou Piscinas e Montanhas, ele apresentava paisagens e ambientes desejados pelo homem contemporâneo, dando ênfase à sua representação esquemática, aos códigos simbólicos da cultura visual. Nesses trabalhos os pormenores do real concreto perdiam-se pela simplificação das formas físicas da realidade e das paisagens representadas, num tratamento que evidenciava a sua qualidade de cenários estereotipados e ironizava sobre o valor simbólico das imagens e a tendência para a sublimação idealizadora.
Seguindo os princípios de representação de anteriores trabalhos, nas obras que integravam o Projecto Calçada da Ajuda, intervenção que ocorreu num espaço familiar desabitado, Pedro Gomes mostrava desenhos murais realizados com pó e desperdícios, que colocavam o visitante perante imagens de linhas e manchas definindo num tratamento simplificado uma figura masculina no acto da masturbação. Neles conservava-se o registo estilizado já antes praticado, mas ao contrário da equivalência universal dominante nas paisagens e montanhas, demarcava-se um espaço de intimidade, privado, correspondente à expressão da identidade singular e do prazer na sua solitária singularidade.

Nos últimos trabalhos que vem desenvolvendo, Pedro Gomes centra a sua visão e reflexão no acto de coleccionar e na condição contemporânea dos objectos antigos, trabalhando a partir da apropriação da imagem de objectos e peças com alto valor simbólico: trata-se de objectos de arte decorativa a que culturalmente atribuímos o estatuto de excepção e transcendência em virtude da historicidade, da raridade, do exotismo e da sua beleza. São objectos raros de colecção, objectos puros, cuja história exige lembrança, cuidados de preservação, respeito e um lugar na memória. O facto de o objecto ter tido um proprietário célebre confere-lhe um valor acrescido. (…)

Continuar a ler: SVJ_Pedro Gomes_MNAA_2005

Alice Gerinhas_War and Love

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Nós, War & Love». In: Alice Geirinhas: War & Love, Oeiras, Galeria 24b [Catálogo], 2005).

 

Quando olhamos para as obras de Alice Geirinhas, o primeiro dado a reter é a falta de realismo do seu registo; a artista serve-se da fotografia, de reproduções de imagens de guerra para realizar um trabalho que se apresenta como resultado da apropriação e deslocação destas imagens. Alice Geirinhas não parte da tela em branco, cita imagens, trabalha sobre aquelas que já existem. Assim ao actuar no espaço da apropriação, a artista aproxima-se do espectador, e situa-se ao nosso lado enquanto observadora dos originais. Encurta a distância tradicional entre o artista e o público, mas também faz a mediação. O anonimato é relativo, já que a sua presença reconhece-se pela intervenção plástica que realiza. No processo de trabalho a artista parte das fotografias e por intermédio da sua prática pictórica vai camuflando a imagem original, torna essas imagens genéricas, distancia-se delas como se a sua intenção não fosse sublinhar o choque e o estremecimento que alguma vez causaram. A sua memória é evocada, mas a aparência é discreta, de modo a não reabilitar as emoções a que estão associadas. O desejo da artista é criar relações de sentido a partir dessas imagens recontextualizadas, o que certamente exige o conhecimento da palavra, do contexto para o qual nos remetem. A legenda faz alusão à sua história e ajuda-nos a situá-las. O propósito da sua intervenção artística é suscitar a reflexão.

Na parede da galeria, acompanhando a exposição das telas, revelam-se fragmentos extraídos da História das Mil e Uma Noites, que contam a história de Xerazade, uma sobrevivente e heroína, que através da palavra e da sedução, impediu a morte de outras mulheres e a sua própria morte. Como relacionar esta história com estas imagens de guerra?

Que leitura nos é suscitada quando vemos lado a lado, telas como Medo, Mãe e Tereska, que evocam a memória colectiva, mas também Alice, Camila e Clara, o auto-retrato da artista com as filhas deitadas no sofá, que desde logo associamos a uma dimensão mais privada e íntima deste pequeno diário feito de imagens. Um diário que nos leva ao encontro da guerra e do amor, assim como à evocação da tranquilidade e da serenidade, e sobretudo a um ponto de chegada que nos faz pensar. E nós, podemos fazer alguma coisa?

Continuar a ler: Alice Geirinhas_War & Love_24b_2005

O Viajante. Sobre a obra de Pedro Cabral Santo


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «O Viajante», Pedro Cabral Santo, Festival Internacional de Arte Vídeo, 2003).


“La monumentalité et la miniaturisation sont des états provisoires d’un object qui devient ainsi critique: ces deux états permettent d’analyser une situation, un moment de l’Histoire.”                                                                            Chris Burden[i]

 

O mundo torna-se infinitamente mais pequeno. É precisamente esta a visão que se exprime com uma força impressionante nas obras de Pedro Cabral Santo. O plano da miniatura, a redução e as diferenças de volume e de tamanho dos corpos surgem no seu trabalho carregadas de um valor plástico, emocional e crítico, adquirindo uma importância considerável na tradução de uma maneira de compreender e representar o «quadro do mundo». Associado a esta escala de referência está ainda a monumentalidade e a grandiosidade acrescida dos objectos que consagra quer à representação do património estético e cultural da admiração humana como aos símbolos do poder e força da sua acção no micro e macrocosmo. Manifesto o desejo de apreender aspectos essenciais da intervenção e da ordem terrena, há ainda lugar para o pessimismo histórico. Perspectiva partilhada e não superada pela consciência extra-humana dos audaciosos de Coragem, o mundo vai acabar (1993-2003) e pelo pacato viajante extra-terrestre de The Superabbit (your moments, your music), 2002. Um coelho sensível, de gosto educado e detentor de uma alta sensibilidade artística e cívica que na sua viagem ao planeta terra não deixa de insistir na tese do grande amigo, T.S. Eliot, e advertir os humanos sobre o horizonte e os destinos da cultura humana[ii].


[i] Pascale Cassagnau, “Chris Burden: Les turbulences du réel”, Omnibus, nº 14, Outubro 1995, pag. 6.

[ii] T.S.Eliot, “Os três sentidos de «cultura»”, in Ensaios Escolhidos, Lisboa, Cotovia, 1996, pp. 117-127.

João Tabarra: No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho

(Original: Sandra Vieira, «O caminho sem fim», João Tabarra: No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, Coimbra, 2003).

Afirmar que se está no meio do caminho e não no princípio, como se esperaria neste início, representa certamente uma forma de distanciamento em relação à trajectória e estrutura que se cumprem muito linearmente a partir de um começo até um fim. Mas representa também um afastamento perante as coordenadas que normalmente usamos para traduzir o sentido de progresso no espaço e de desenvolvimento na estrutura da narrativa.

Podendo a etapa do meio ser a menos gloriosa do itinerário, porque não se associa ao entusiasmo e prova de iniciativa da parte inicial, nem à euforia que acompanha a etapa final, ela não deixa de evocar  um valor próprio, captado no provérbio que diz que “no meio está a virtude”. Como ponto equidistante dos pólos, ele tanto pode funcionar como uma instância de articulação entre os pontos de partida e chegada, como um local privilegiado de observação.

Todavia, no sentido de intensificar a nossa controlada situação instável, optemos por assumir uma definição peculiar de meio: não tanto um ponto de equilíbrio entre dois extremos, mas sobretudo um pólo e campo abalado por múltiplas tensões. Estamos a falar de um lugar, onde à semelhança da instalação de João Tabarra, Protecção (2003), as pedras irrompem e se interpõem ao olhar que cobre uma clareira junto a um bosque; e, mesmo, de um espaço onde os obstáculos se manifestam sem cessar e de diferentes formas (Barricades Improvisées, 2001 e Bleu, 2002). Tudo isto sem que se produza um desvio à normalidade e a passividade se instale perante as dinâmicas que oferecem ameaça e oposição (Mute Control, 2000 e Defense, trois mouvements I, II, III, 2001). Afinal todas elas são circunstâncias que fazem parte do processo e por isso mesmo se expõem como desafios a superar (This is not a drill (No pain no gain), 1999), o mesmo acontecendo com as dúvidas e interrogações que sempre surgem ao longo de qualquer caminho, tornando evidente a necessidade de aferir o sentido da acção que se exerce (série What type of contestation are we asking for?, 1997-1998) e de viver ao arrepio das afirmações consagradas, e do temor de não encontrar respostas definitivas.  (…)

Continuar a ler: SVJ_JOÃO TABARRA_2003

The First Step_MACE


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Lado a Lado», The First Step/O Primeiro Passo, MACE – Movimento para a Arte Contemporânea em Évora, 2001, pp. 13-16) [Exposição comissariada por Pedro Cabral Santo e Pedro Portugal que decorreu entre 27 de Outubro e 16 de Dezembro de 2001 nos Armazéns da Palmeira, Évora].

 

Não por casualidade o título da primeira exposição do Movimento para a Arte Contemporânea em Évora O Primeiro Passo vem evocar a ideia de mobilidade, de iniciativa e de acção, e nela, entre aqueles que se juntaram para dar o primeiro de muitos passos, estava David Medalla. Artista de origem filipina, mas residente há muito tempo em Londres, desde a década de 60, Medalla vem confirmando a dinâmica experimental e a lógica cosmopolita que preside à génese do seu trabalho. Algo que o leva a viajar pelo mundo e de um modo muito informal a procurar estabelecer relações de trabalho com colegas e amigos com quem se vai cruzando ao longo do percurso. Foi segundo esses mesmos princípios de relacionamento que o artista endereçou pessoalmente um convite à população de Évora, incitando-a a participar na performance que decorreria nos Armazéns da Palmeira.

Continuar a ler: LADOALADO_FIRSTSTEP


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