Natxo Checa: 53. International Art Exhibition – La Biennale di Venezia

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Natxo Checa», Experiments and Observations on Different Kinds of Air. 53. International Art Exhibition – La Biennale di Venezia, DGArtes, Lisbon, 2009, p. lxi).


Natxo Checa is director of the Zé dos Bois Gallery (ZDB), an important independent venue located in Lisbon and dedicated to artistic creation, production and dissemination that is a landmark on the contemporary Portuguese cultural scene.

Carrying out the tasks of management, production, programming and curating from this platform, since 1994 he has led a movement in independent artistic production, with a crucial role in changing perspectives on the visual arts in Portugal. He is developing an original programming model which combines innovative proposals in the sphere of the visual and performance arts and music, and has contributed to implementing the drive to promote artistic offerings with a considerable impact in the national cultural milieu.

His curatorial activities include the presentation of projects by numerous national and international artists, with original works produced in the fields of public art, painting, design, sculpture, installation, photography, video and 16 mm film. These have grown out of a curatorial accompaniment undertaken from the initial period of research in close collaboration with the creators. Among the most recent exhibitions, the following stand out: Swim again / Nada de Novo, by Rigo (2006), co-curated with ManRay Hsu, G (2007), by João Tabarra; Transitioners (2007), by Société Réaliste; Portobello (2008), by Patrícia Almeida; and Ontem (2008), by André Cepeda.

As regards curating of visual art exhibitions held in ZBD, he has accompanied and produced, since 2001, a remarkable group of artistic projects by João Maria Gusmão and Pedro Paiva. DeParamnésia (2002), Eflúvio Magnético (2004/2006) and Abissologia (2007/2008) are the most ambitious projects in the exhibition trajectory of this pair of artists.

As a cultural agent, his activity has encompassed other initiatives, such as the direction of the Atlantic Festival in 1995, 1997 and 1999 and the facilitation of numerous interventions, collaborating with structures in the visual arts, multimedia, new music, dance and theatre. For research into curatorial studies, he was awarded the Fund for Art Research grant, in 2007-2008, by the American Center Foundation.

Currently he is organising a cycle dedicated to the North American Kenneth Anger, which will include a collective exhibition of visual arts of international scope and an anthological show of the producer, as well as a programme of lectures and performances. In respect of Zé dos Bois Gallery activities, he is preparing, for the second half of 2009, the year zero of an international centre for residencies and advanced training based in Lisbon, with the support of high-profile partner institutions.

Natxo Checa. Catálogo do Pavilhão de Portugal na Bienal de Veneza 2009


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Natxo Checa», Experiments and Observations on Different Kinds of Air. Catálogo da representação portuguesa na 53. International Art Exhibition – La Biennale di Venezia, DGArtes, Lisboa, 2009, p. lxi).


Natxo Checa é director da Galeria Zé dos Bois (ZDB), um importante espaço independente situado em Lisboa dedicado à criação, produção e difusão artística que constitui uma referência da cultura contemporânea portuguesa.

Exercendo as actividades de gestão, produção, programação e comissariado desta plataforma, impulsiona desde 1994 um movimento de produção artística independente com um papel determinante na mudança de perspectiva das artes visuais em Portugal. Desenvolve um modelo original de programação que conjuga propostas inovadoras no âmbito das artes visuais, performativas e da música que tem contribuído para a implementação de uma dinâmica potenciadora de oferta artística com grande impacto no meio cultural nacional.

A sua actuação na área da curadoria inclui a apresentação de projectos de múltiplos artistas nacionais e internacionais, com obras produzidas de raiz, na área da arte pública, da pintura, do desenho, da escultura, da instalação, da fotografia, do vídeo ou do filme em 16 mm que resultaram de um acompanhamento curatorial realizado desde o período de investigação em estreita colaboração com os criadores. De entre as mais recentes exposições destacam-se: Swim again / Nada de novo de Rigo (2006), em co-curadoria com ManRay Hsu; G (2007) de João Tabarra; Transitioners (2007) de Société Réaliste; Portobello (2008) de Patrícia Almeida; e Ontem (2008) de André Cepeda.

No âmbito da actividade curatorial de exposições de artes visuais realizadas na ZDB, tem acompanhado e produzido, desde 2001, um conjunto notável de projectos artísticos de João Maria Gusmão e Pedro Paiva. DeParamnésia (2002), Eflúvio Magnético (2004/2006) e Abissologia (2007/2008) são os projectos mais ambiciosos do percurso expositivo desta dupla de artistas.

Enquanto agente cultural, a sua actividade tem incluído outras iniciativas como a direcção do Festival Atlântico em 1995, 1997 e 1999 e a viabilização de numerosas intervenções, colaborando com estruturas nas áreas das artes visuais, do multimédia, das novas músicas, da dança e do teatro. No âmbito da pesquisa desenvolvida nos estudos curatoriais foi-lhe concedida a bolsa Fund for Art Research, em 2007/08, pelo American Center Fundation.

Actualmente está a organizar um ciclo dedicado ao norte-americano Kenneth Anger, que incluirá uma exposição colectiva de artes visuais de âmbito internacional e uma mostra antológica do realizador, além de um programa de palestras e performances. No âmbito das actividades da Galeria Zé dos Bois, prepara para o segundo semestre de 2009 o ano zero de um centro de residências de âmbito internacional de formação avançada sediado em Lisboa, com o apoio de parceiros institucionais de relevo.

João Maria Gusmão e Pedro Paiva. Representantes de Portugal na Bienal de Veneza 2009

João Maria Gusmão e Pedro Paiva, Olho Ciclópico, 2008. Filme 16 mm, cores, sem som, 2’45’’.

(Sandra Vieira Jürgens, «João Maria Gusmão + Pedro Paiva», Experiments and Observations on Different Kinds of Air. Catálogo da representação portuguesa na 53. International Art Exhibition – La Biennale di Venezia, DGArtes, Lisboa, 2009, p. lvii).


João Maria Gusmão (Lisboa, 1979) e Pedro Paiva (Lisboa, 1977) frequentaram conjuntamente o curso de Pintura da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e começaram a expor os trabalhos realizados em parceria em 2001, numa exposição colectiva intitulada InMemory, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Desde então que a sua produção artística está ligada a esta instituição. Nos três anos seguintes o percurso expositivo da dupla esteve marcado pela exibição de projectos como DeParamnésia (partes 1, 2 e 3, em 2002), Air Liquide (2002), O Ouro dos Idiotas (2003), Matéria Imparticulada (2004) e Eflúvio Magnético: O Nome do Fenómeno (2004). Em 2005 os dois artistas venceram a 5ª edição do Prémio Novos Artistas, instituído pela EDP, e exibiram um conjunto de trabalhos intitulado Intrusão: The Red Square no Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea. No ano seguinte apresentaram Eflúvio Magnético (2ª Parte) na Galeria Zé dos Bois e Eflúvio Magnético (Síntese) no Teatro Municipal da Guarda. Em 2007 é organizada a primeira mostra individual do seu trabalho no estrangeiro, com a exposição Crevasse, no Museu de Arte Contemporáneo de Castilla y León (Espanha), seguida de várias outras individuais em 2008, como Horizonte de Acontecimientos no espaço Matadero Madrid (Espanha), Hydraulics of Solids na Adam Art Gallery at Victoria University of Wellington (Nova Zelândia) e Passengers: 1.7 na CCA Wattis Institute for Contemporary Arts, São Francisco (Estados Unidos). Nesse ano exibiram ainda Meteorítica na Galeria Graça Brandão em Lisboa e na Galeria Fortes Vilaça em São Paulo (Brasil), Abissologia na Cordoaria Nacional / Galeria Zé dos Bois e Articulações nas Minas de Salgema em Loulé. Em 2009 apresentaram About  The Presence of Things no Kunstverein Hannover (Alemanha). O seu trabalho foi mostrado em múltiplas exposições colectivas desde 2001, salientando-se a presença, em 2006, na 27ª Bienal de São Paulo (Brasil), em 2007 na Trienal de Luanda (Angola), na 6ª Bienal de Mercosul, Porto Alegre (Brasil), no Prémio União Latina, Culturgest (Lisboa) e, em 2008, na Manifesta 7 – European Biennial of Contemporary Art, Rovereto (Itália) e nas exposições Part of the Process 3, Galleria Zero, Milão (Itália) e O Presente: Uma Dimensão Infinita, Museu Colecção Berardo, Lisboa.

Gusmão e Paiva desenvolvem os seus projectos artísticos no campo da fotografia e do filme de 16 mm e no domínio da instalação, com a apresentação de projecções de vídeos e de diapositivos. Nestas áreas de actuação constroem situações e narrativas que tomam a forma de pequenas ficções, onde exploram a fusão entre a arte e a ciência. A sua obra é em parte dominada por temas onde o âmbito de investigação experimental, a técnica, a invenção, o processo de descoberta ou o factor de risco surgem retratados de uma forma muito característica. Filmam e tiram fotografias em espaços naturais, em paisagens de montanha e em locais longínquos, distanciando-se dos cenários dos modernos laboratórios onde os processos experimentais e a exploração do mundo hoje acontecem. Os materiais que utilizam são simples, a tecnologia é tratada sem meios sofisticados e os efeitos e fenómenos que transpõe para o meio artístico são concretizados de modo bizarro e misterioso, sem que diminua em nada a impressão produzida. Os seus trabalhos são desconcertantes, promovem uma incerteza relativamente à autenticidade do que foi visto e comportam, além disso, uma outra nota de ironia e de absurdo que são também traços característicos da sua obra conjunta.

Um aspecto fundamental da sua intervenção relaciona-se também com a produção escrita que acompanha o trabalho artístico dos dois autores. Nesse sentido deverá mencionar-se a reflexão teórica que desenvolvem em torno dos assuntos que pretendem abordar e as aproximações que fazem ao campo da literatura e a vários domínios da filosofia, da estética e da física. Usam material literário, como é indicado num dos seus projectos mais importantes e ainda em curso, Eflúvio Magnético, onde se baseiam na obra O Homem que Ri de Victor Hugo. Na maior parte da sua pesquisa conferem um papel preponderante a questões que nos remetem para o pensamento de autores como Bergson, Nietzsche e Heidegger. Também Alfred Jarry, autor da “patafísica”, definida como “a ciência das soluções imaginárias”, constitui referência entre os interesses omnipresentes na obra de João Maria Gusmão e Pedro Paiva: a experimentação, a relação entre a ciência, a ficção e a poética.

João Maria Gusmão and Pedro Paiva: 53. International Art Exhibition – La Biennale di Venezia


(Sandra Vieira Jürgens, «João Maria Gusmão & Pedro Paiva», Empiricisms. New documental languages in Spain and Portugal, LisboaPhoto, 2005, pp. 94-95).


(Sandra Vieira Jürgens, «João Maria Gusmão + Pedro Paiva», Experiments and Observations on Different Kinds of Air., 53. International Art Exhibition – La Biennale di Venezia, DGArtes, Lisboa, 2009, p. lvii).

 

João Maria Gusmão (born Lisbon, 1979) and Pedro Paiva (born Lisbon, 1977) both graduated with a degree in Visual Arts – Painting from the Faculty of Fine Arts of the University of Lisbon, and began displaying their work in partnership at an exhibition entitled InMemory, at Lisbon’s Zé dos Bois Gallery, in 2001. Their careers have since remained connected to this institution. In the following three years, highlights of the exhibitions staged by the duo included projects such as DeParamnésia (parts 1, 2 and 3, in 2001 and 2002), Air Liquide (2002), O Ouro dos Idiotas (2003), Matéria Imparticulada (2004) and Eflúvio Magnético: O Nome do Fenómeno (2004). In 2005, the two artists were awarded the 5th annual EDP New Artists Prize and exhibited a set of works entitled Intrusão: The Red Square at the National Museum of Contemporary Art – Chiado Museum. In the following year, they presented Eflúvio Magnético (2ª Parte) at the Zé dos Bois Gallery and Eflúvio Magnético (Síntese) at the Guarda City Theatre. In 2007, their first individual international exhibition took place with the exhibition Crevasse, at the Castilla y León Museum of Contemporary Art (Spain), leading to various other individual exhibitions throughout 2008, such as Horizonte de Acontecimientos at the Madrid Matadero venue (Spain), Hydraulics of Solids at the Adam Art Gallery at Victoria University of Wellington (New Zealand) and Passengers: 1.7 at the CCA Wattis Institute for Contemporary Arts, San Francisco (United States). That same year also saw Meteorítica at the Graça Brandão Gallery in Lisbon and the Fortes Vilaça Gallery in São Paulo, Abissologia at the Cordoaria Nacional / Zé dos Bois Gallery in addition to Articulações in the Minas de Salgema, Loulé. In 2009, they presented their work About The Presence of Things at the Kunstverein Hannover (Germany). Their work has also been widely included in collective exhibitions as from 2001, with the following among the higher profile examples, in 2006, at the 27th São Paulo Biennial (Brazil), in 2007 at the Luanda Triennial (Angola) and at the 6th Mercosul Biennial, Porto Alegre (Brazil) and, in 2008, at Manifesta 7 – European Biennial of Contemporary Art, Rovereto (Italy).

Gusmão and Paiva undertake their artistic projects within the fields of photography and 16 mm film as well as that of installation. Their work is partially dominated by themes within the ambit of experimental research, technique, invention, the process of discovery with risk factors portrayed in a highly characteristic style. The materials that they use are simple with the technology incorporated handled without excessive sophistication. The effects and phenomenon transposed into the artistic field are carried out in such a way that they promote a sense of uncertainty regarding the authenticity of that seen, while furthermore also carrying an additional note of irony and the absurd, which also represents another of the hallmarks of their joint work.

A fundamental aspect to their intervention also relates to the writing produced to accompany the output of the two artists. In this area, mention must be made as to the theoretical reflection developed around the subjects that they seek to approach and the approximation made not only to the field of literature but also the various branches of philosophy, aesthetics and physics. They also incorporate literary material and, in much of their thinking, a preponderant role is attributed to questions that take us back to the work of authors such as Bergson, Nietzsche and Heidegger. Alfred Jarry, inventor of “‘pataphysics”, defined as “the science of imaginary solutions”, also features as a landmark among the omnipresent interests running throughout the work of João Maria Gusmão and Pedro Paiva: experimentation, the relationship between science, fiction and poetry.

JOSÉ DAMASCENO interviewed by… Catálogo da Bienal de Veneza 2005

Motim

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «José Damasceno», in arq./a: Arquitectura e Arte, n. 26, Julho/Agosto 2004, pp. 88-91).
 

(Reposição: «José Damasceno interviewed by Sandra Vieira Jürgens», in The Experience of Art, 51ª International Art Exhibition – La Biennale di Venezia, La Fondazione La Biennale di Venezia, 2005, pp. 60-61).

(Reposição: Sandra Vieira Jürgens, «Uma Conversa com José Damasceno», Revista Arte & Ensaios, nº 13 (2006), PPGAV-EBA/UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, p. 79-83).


Sandra Vieira Jürgens: Estudou arquitectura no início dos anos 90. Como é que foi essa experiência e de que maneira terá ela marcado as intervenções artísticas que vem realizando? Por exemplo, o domínio da arquitectura ajudou-o a definir uma certa perspectiva para situar e entender o espaço da obra, para intervir pensando sempre no lugar de exposição?

José Damasceno: Bem, no princípio, passei sim pela arquitetura, não como uma escolha deliberada mas por circunstâncias outras: na verdade havia me candidatado ao curso de desenho industrial, mas como fui reprovado numa prova de desenho, optei então por outra alternativa. Foi um período muito difícil para mim, pois não encontrava um ritmo, não me adaptava de forma alguma, coisa que chegou a um ponto insustentável, até que abandonei o curso, mal atingindo a sua metade. Entretanto, vejo claramente como minha breve passagem pela arquitetura está presente naquilo que faço hoje. Curioso como, muitas vezes, nossas experiências contribuem para coisas tão imprevisíveis.

Você havia mencionado falar “à distância”… Apresentou-se uma referência espacial e, claro, estamos muito longe geograficamente – mesmo que on-line – nos comunicando por meio de textos através da rede. Vou tentar passar para você como é para mim absolutamente vital pensar o espaço, seja qual for a circunstância. Sendo assim, essa “distância” de que você fala surge em função da localização geográfica, da linguagem, do meio utilizado, da rede. A arquitetura me proporcionou uma aproximação com a questão do espaço sim, mas não foi determinante em se tratando de como conduzir e de que maneira abordar o problema, como me situar, como refletir. Exercitei, é certo, alguma observação, obtive instrumentos – em se tratando de escalas, proporções, dimensionamentos.

Mas creio, enfim, que não veio daí o que você colocou sobre como me situava e entendia o espaço da obra. Não foi a faculdade de arquitetura que me aproximou de fato da arquitetura. Eu simplesmente enfrentei e comecei por conta própria a resolver problemas que se colocavam, optimizando aquilo que vinha aprendendo, a observação, o projeto, a maquete e, sem me dar conta, assimilando e adquirindo ferramentas que seriam úteis, depois. Não vejo possibilidade alguma de intervir, seja onde for, sem pensar no “lugar da exposição” porque, na verdade, pensar é criar espaço, elaborar relações, intuir dimensões, relativizar coordenadas, esse “pensar no lugar”, que você citou, se confunde mesmo com o próprio pensar, um estudo do lugar.

Qual a natureza do espaço em questão? Estão sempre em jogo muitas dimensões possíveis, superfícies outras que possuem continuidades improváveis, saltos escalares, torções contíguas, túneis dimensionais, naturezas distintas da ordem da linguagem, coordenadas temporais, coexistências afectivas, potencialidades psíquicas, posicionamentos de um problema entre outros problemas… Um certo sistema de relações por onde nos movemos, habitamos. Uma possibilidade revela-se intrigante: expandir o conceito arquitectónico e simultaneamente dilatar o espaço poético, produzindo um efeito de imersão dupla, cada domínio envolvendo o outro quase que por completo. Seria como se pudessemos habitar o pensamento ou, talvez, observá-lo vivo, deslocando-se no real, um espaço de trânsito entre nós, seria viver espacialmente o espírito?

SVJ: Ao referir-se a um “espaço poético”, a um “espaço de trânsito entre nós”, não posso deixar de assinalar a combinação interessante que se expõe na sua obra, entre a sensibilidade poética e o sentido de humor? O humor é uma forma de estreitar relações e estabelecer cumplicidades com outros, sejam reais ou imaginários?

JD: Você fala em sensibilidade poética e, logo em seguida, sobre o sentido de humor. Curioso notar como, às vezes, expressões aparentemente simples apontam para uma quase total incerteza quanto ao que de facto significam. Sensibilidade poética? Que diabo vem a ser isso, afinal? E sentido de humor? Seria a capacidade de expressar o que é cómico?

Penso que, no final, essas duas coisas possuem muito em comum; uma não existe sem a outra, são problemas e equações que se nutrem mutuamente, ao mesmo tempo graves e cómicas sem nunca se saber onde começam e onde terminam, onde está a solução, enfim. Perguntas e respostas que se alternam, se permutam – quase se confundem –, algo sempre se move, nunca nada se detém, um moto-perpétuo bizarro… São cada uma a seu modo e também cooperando entre si, uma certa proposição frente ao mundo, uma forma de enunciar, supor, especular, duvidar, colocar, complicar… complicar, sim, e por que não? Se não for assim, não tem graça!

Sim, é uma escolha, um determinado enunciado, a reunião de elementos um tanto estranhos, que por mostrarem, agora, juntos, o que parecem ser – princípios inofensivamente disparatados, de início regidos por um funcionamento bastante peculiar – resultam em um sistema de causa e efeito suspenso que nos surpreende pela sua aparente simplicidade, uma banalidade talvez, mas que é portadora de um abismo, agora bem perto, ao nosso lado. Não são conclusões, nem tampouco resultados, mas improváveis elucubrações, curiosa série em que, possivelmente, uma certa concatenação que por súbita adesão a uma outra ainda impensada se revela, então, ao mesmo tempo irreverente e mordaz, brincalhona e agressiva. Mas, essa é a forma com a qual talvez me relacione com as coisas, ou ao menos a que gostaria. Não se trata de uma opção qualquer. Sim, é uma escolha, mas essa escolha pressupõe levar adiante este processo, até as últimas consequências. O modo como vejo o mundo, como me aproximo e abordo aquilo que por algum motivo me parece interessante.

Falo aqui de algo absolutamente crucial, estrutural. Sem humor não se chega a lugar algum que interesse, não se pode viver – e por favor não me pergunte por quê. Talvez não seja a forma correcta ou “séria”, mas é assim e pronto! Não pretendo estabelecer cumplicidade alguma num primeiro momento, não me importa, é algo que surge muito depois. Não há nada conciliador. A brincadeira aqui é outra.

…E de repente as pessoas pensam ser divertido. Será divertido mesmo? Talvez pelo fato de algo estar presente, absolutamente claro mas… Não se sabe ao certo onde isso vai parar. Há um propósito que percebemos que existe, mas não reconhecemos sua finalidade, algo, no final das contas, sempre escapa… Estamos diante de um estado de perplexidade iminente… Como se, ao invés de rir das obras, seriam elas que agora riem de nós. E diriam entre si: ‘como eles são loucos!’ Porque, vale dizer, elas estão entre nós, vivem connosco ou são como radiografias, retratos de nós mesmos. Entretanto, mesmo vendo-as claramente não conseguimos compreendê-las por completo.

SVJ: Uma das singularidades do seu trabalho é a maneira como combina e estabelece relações entre materiais, objectos, suportes. Estou a pensar em obras como “Reunião Imprevista”, “Solilóquio” ou “Uma ponte”, O Presságio Seguinte…”, “Motim”. Podem considerar-se materializações de uma mesma ideia? Qual a ideia que está por detrás?

JD: Começo comentando esse primeiro problema levantado por você sobre a maneira como combino e estabeleço relações entre materiais, objetos, suportes. Diria que, nesse momento, começo a me dar conta de uma série de características e recorrências que indicam caminhos. Seriam leituras mais claras e contundentes sobre aquilo que venho propondo e realizando. Não sou reconhecido apenas pela utilização desse ou daquele material, ou ainda por alguma técnica específica – mesmo levando-se em consideração recorrências já constatadas. Absolutamente não abro mão de estar aberto a qualquer possibilidade, no sentido de me valer do material ou técnica necessários para estar o mais próximo possível daquilo que pretendo realizar.

Num primeiro momento, não me importo se utilizo carpete, cigarros, mármore, sabão, concreto, isopor; ou então, diferentes procedimentos de execução / montagem / construção; se eventualmente trabalho com a cooperação de outros profissionais que, com minha orientação e suas habilidades próprias, venham a fabricar as peças; ou se eu mesmo, cuidadosamente, me detenha na elaboração e organização de uma determinada situação espacial; ou ainda se viabilizo a execução de algum desenho… cada situação nova compreende todo um processo com exigências bem particulares. Procuro estar sempre atento e perceber aquilo que se mostra indispensável para atingir a plena manifestação dos trabalhos.

Aprendi também a ser flexível quanto ao projeto inicial, com a atenção voltada para o acaso e as circunstâncias imprevisíveis que sempre surgem. Os materiais e técnicas são evidentemente muito importantes, pois são eles que trazem à luz dados cruciais e informações elementares que estão em jogo.

O que é isso tudo afinal? Do que se trata? Talvez essas perguntas sejam pistas esclarecedoras, pois a coesão entre as peças – que se pensaria a princípio estar atribuída aos aspectos construtivos – encontra-se em outro lugar mas, onde, então, se encontra esta coerência? Com certeza mantém-se ligada às características físicas, afinal as peças estão no mundo… Contudo, ela se encontra relacionada a uma série considerável de elementos distintos que pertencem a outros domínios. Portanto, se faz necessária uma nova abordagem com um novo enfoque.

Existe, sim, algo em comum que permeia todas essas propostas. Poderia destacar sobretudo a ênfase numa constante tentativa: obter um contato outro com elementos que pertençam a um plano imaginário mas, agora nesse caso, presente entre nós.

Você falava se as peças citadas acima seriam consideradas ‘materializações de uma mesma idéia’. Posso talvez extrair daí algo nas entrelinhas.

Você refere-se a como seria essa “materialização de ideias”. O que me interessa muito, me fascina mesmo, é justamente o aspecto da passagem. Intriga -me muito tudo que esteja relacionado a esse fluxo entre mundos aparentemente separados. Aquele, situado num plano mental, um campo imaginário de facto, e o outro que podemos tratar aqui de ‘real’, ao qual atribuo uma qualidade fundamental: a de ser um espaço de trânsito entre nós, onde se coexiste.
Em seguida, você pergunta que ideia está por detrás? Isto eu também quero muito saber! Deve ser esse um dos motivos pelo qual me dedico a este trabalho. Parece-me que há algo de interessante e ao mesmo tempo não muito fácil de lidar, uma sensação de que existe um propósito não revelado que se sabe que existe mas sempre nos escapa. A ideia que está por detrás é a pergunta com relação à natureza dessa ideia, uma ideia que se pergunta e se questiona pela sua própria existência. Uma certa vibração incide, uma certa freqüência ocorre, juntas e vindas do campo do imaginário, da ordem da linguagem, e permitem finalmente que algo se manifeste, uma espécie de problema, de enunciado, uma certa equação, um momento muito singular que se constitui concretamente.

Contudo, esta presentificação do espírito (quanto mais aguda e abrupta melhor) não faz mais do que nos atirar para o lugar de onde veio, ou senão mais além… Sua presença revela a existência desse mundo mental aliado às pulsões ainda mais internas, indicando assim um outro problema, a observação de uma possível microfísica do imaginário. Como se organiza, como se comporta, qual densidade, como ela habita o mundo? Parece que se inicia uma espécie de reação em cadeia infernal. Pois tudo isso possui um caráter transitório e não se fixa, ou melhor, teríamos diante de nós uma espécie de amálgama temporal, um presente puro que nos parece imóvel mas, ao mesmo tempo, se mostra dinâmico. O que se passa, não se sabe se já aconteceu, se está se passando ou se vai logo começar, na verdade seria tudo isso ao mesmo tempo.
Pensar o pensamento. Uma espécie de exame, jogo, exercício, estudo, investigação demente da linguagem. Uma inquietante topologia se verifica, espécie de reviramento que opera uma adesão de superfícies muitas vezes separadas, isoladas. Só posso observar isto que desejo, o contato entre o mundo imaginário e o mundo factual, utilizando o próprio contato a ser observado, ali justamente onde adquire concretude. Isso então se torna um drama e frente a isso a única saída talvez seja lançar mão do humor.
Tudo até aqui parece nos oferecer um cerne, um eixo. Uma visão mais detalhada revelaria a presença de uma gama repleta de diversas “ideias”. Acontece que nesse ponto elas estariam submetidas à condição de material e se converteriam numa matéria com uma densidade própria.

Outra vez chegamos a um ponto crítico. Estas operações somente são possíveis mediante uma intermitente negociação com um vasto universo de estímulos diferentes, imagens, cores, formas, afectos, significados, cargas simbólicas, estes estímulos tendem a tocar outros tantos e os “ligar”, e assim por diante.

Uma peça, por fim, possui uma ordem/desordem inerente, um comportamento, uma dinâmica interna que produz algo, que produz sentido, porém nada está dado, se solicita sempre, a todo o momento, que se participe para que a coisa comece a acontecer. Importante ressaltar que nada aqui é “criado” a partir do nada, na verdade está tudo muito perto, talvez mais do que possamos imaginar…

Por fim, não quero deixar de citar um detalhe sem o qual isso tudo não existiria. Falo de um elemento estrutural, extremamente importante pelo seu caráter construtivo e flexível, ora como ferramenta ora como o material por ela modificado. Refiro-me à invenção e seu sentido o mais primordial. Sua ausência impossibilitaria levar adiante essa proposta de trabalho, uma vez que se torna irremediável lançar mão de tudo aquilo que afirme a invenção como parâmetro básico, como factor original.

SVJ: Como lhe parece o mundo hoje em dia, em relação ao que vai expressando na sua obra.

JD: Trata-se de uma questão e tanto. Difícil de simplesmente definir a extensão e abrangência desse “mundo” do qual você me pede um comentário. Pertenço a uma geração que surgiu e cresceu após o fim da festa, do optimismo dos anos 1960, com a falência das utopias, em meio a uma atmosfera de certa forma pessimista, para não dizer apática.

Hoje, vivemos sobretudo um momento de transição, que produz uma angústia incontornável, oriunda da perda de referências, uma carência de valores, o esgotamento do exercício da reflexão sobre esses valores. Perdemos o que supunhamos ter, e ainda não alcançamos o que nem temos ideia se pode existir. Por mais pessimista que seja, esse estado transitório e a tensão que o acompanha merecem atenção. Um momento que pressupõe a mudança. Mesmo se tratando de uma obviedade, não posso negar o facto, pela sua forte evidência de que o período em que nos encontramos agora se modifica e se transforma profundamente numa velocidade impressionante em quase todos os níveis, nas relações de trabalho, de produção, de organização familiar …

Devo em primeiro lugar mencionar o vertiginoso adensamento de tudo aquilo que se relacione com os incontáveis estratos da informação. Nunca antes estivemos expostos e sobre a influência de tantos estímulos visuais, sonoros, impressos e, ultimamente, cibernéticos. É como se, de fato, se inaugurasse um novo momento. A sociedade da comunicação: a informática, a Internet, as publicações, a televisão, o cinema, a propaganda, a moda, tudo isso gera um novo hábitat, constituído por um meio fluido, aleatório, mental, ficcional, imprevisível, no qual a esfera política e também a esfera quotidiana são permeadas por forças delirantes e fragmentadas. Presenciamos a modificação da paisagem – agora ela possui uma nova geografia em grande parte regida pela economia, pelo mercado, a entidade que prevalece esmagadoramente…

Não existindo mais esquerda e direita, ‘nós contra eles’, altera-se a forma de se relacionar com o mundo num plano político; dissolve-se aquilo que sustentaria uma actividade crítica mais contundente, tornando-se algo obsoleto um posicionamento político claro, agora diluído num movimento mais dúbio, complexo, ainda mais em se tratando dos fluxos das megacidades, das megapopulações e, novamente, tudo orientado pelo mercado, a mola mestra, como disse.

Vejo um processo de desmonte do sentido de coletividade, que talvez fosse substituído por uma infinidade de contextos diferentes, daí podendo surgir um novo impulso de criatividade, cada qual reagindo à sua maneira. Tenho a impressão de havermos chegado a um ponto em que se verificauma crise paradigmática sem precedentes, a desorientação imanente sobre como viver e se relacionar em meio a esse caldo psíquico, responsável por um efeito de alteridade vacilante, sobre como se deslocar, se expressar, se manifestar… não se sabe bem ainda a que recorrer.

Parece-me, também, estarmos imersos em um meio quase que hostil ao surgimento de algum posicionamento crítico mais inquieto, político e artístico. Hoje, qualquer movimento de contestação é imediatamente desarmado, neutralizado e assimilado pela propaganda.

Neste panorama um tanto pessimista, a existência dessa crise paradigmática torna-se um sinal positivo. A consciência desse ‘encontrar-se perdido’ é que oferece a possibilidade de superação. A pulsão de luta se restabelece, em meio a derrota haver sidoassimilada. A possibilidade de enfrentar essa constatação aponta uma saída e, a partir daí, encoraja o desenvolvimento de processos que possam dialogar e se relacionar com tais circunstâncias problemáticas. É na própria perda da esperança, do valor da utopia, que se encontra a possibilidade, o acto, o movimento de mudança.

Nesse contexto, vejo a arte contemporânea fazendo parte desse cenário não muito optimista, como um espaço aberto propício a reflexões e acções. Há um sentido quase de urgência, em que é impossível não tomar uma posição, definir uma orientação, tornar clara uma escolha. O que venho propondo se nutre sim do mundo que me cerca, relaciona-se com essa circunstância, mas sempre de forma oblíqua, no sentido de atravessar diferentes campos da experiência, do saber, do conhecimento, oferecendo um contato com situações extremamente subterrâneas – e ao mesmo tempo muito aparentes – na procura de mapear essa realidade de alguma forma. Estes trabalhos são a tentativa de desenvolver ferramentas que possam operar cortes, reconfigurações, cuidadosos exames, observações que possibilitem o surgimento de novas idéias, sempre se levando em consideração um nível de complexidade crescente e a intensificação do sentido de exploração junto a esses novos problemas.

Tento evidenciar que não há alternativa a não ser tomarmos uma posição. O pensamento também precisa respirar… Sobretudo, é preciso rir de tudo isso. É muito importante pensar o humor como condição e recurso indispensáveis. Talvez a arte possa então operar um movimento indagador, uma curiosidade inquietante, um deslocamento que ofereça novas visadas, novos olhares, contribuindo com formas acessíveis de se enriquecer o pensamento, para que possamos descobrir o arco de possibilidades que o acto poético, sempre político, pode oferecer. Por menor que seja, algo que permita nos darmos conta do potencial humano e poético da vida. Por mais “isolada” que a arte se encontre, não importa, ela mantém viva aquilo com que nos surpreendemos, sofremos, amamos, nos debatemos, lutamos: a vida como referencial primeiro e a perplexidade daí resultante.

 

Continuar a ler: SVJ_Conversa com José Damasceno_Revista Arte & Ensaios

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