JOÃO PEDRO VALE

João Pedro Vale_Barco Negro_2004

João Pedro Vale, Barco Negro, 2004


(Original: Sandra Vieira Jürgens, João Pedro Vale: Terra Mágica, Porto, Mimesis, 2005).

 

Advirto o leitor de que não se fará uma grande história, romanceada a partir da análise da obra e trajectória de João Pedro Vale. Talvez porque normalmente já associamos o registo ficcionado ao trabalho do crítico e do historiador de arte, muitas vezes até pela falta de precisão e objectividade das suas leituras. Sugerimos um outro enquadramento, mas nem sequer a realização de uma súmula ou um levantamento documental da sua obra. Assim, ao longo deste ensaio tentaremos articular esta abordagem de acordo com a perspectiva que o próprio artista tem do processo criativo, da sua atitude perante o espectador, de como entende a obra e os diferentes níveis de significado que lhe são inerentes.

A ficção/construção ficcional tem uma grande importância no universo imaginário de João Pedro Vale. De um ponto de vista geral, boa parte das suas instalações escultóricas mais recentes surgem aliadas à ideia de ficção. Muitos dos seus trabalhos fazem referências a personagens célebres da literatura infantil e a narrativas ou filmes que na infância lhe ficaram na memória. Porque foram lidas ou vistas por todos, podem ser partilhadas pelo espectador, sem que, porém, este possa reconhecer ou identificar os valores morais atribuídos, bem como os modelos de comportamento que deram forma à sua função didáctica. As instalações escultóricas de João Pedro Vale não ilustram estes elementos, as histórias e as figuras servem-lhe de ponto de partida para desenvolver uma extensão ficcional. No seu trabalho altera o significado das acções das personagens, dos acontecimentos narrados, apropria-se das suas imagens e desloca-as para outro campo de interesses, levantando questões que o mobilizam.

Determinante é também o plano da visualidade e a atracção plástica que as imagens destes reinos do maravilhoso exercem em João Pedro Vale. A cenografia, a arquitectura, os adereços, os vestidos e os materiais, com os seus tecidos, as suas texturas e cores, são alguns dos elementos que permanecem na sua memória e podem ser apontados como parte fundamental da imagem de riqueza e do fascínio que encerram.

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ALICE GEIRINHAS_A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer#2

Alice Geirinhas

Alice Geirinhas


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Eu Tu Ela», in AA.VV, Alice Geirinhas: A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer #2, Porto, Mimesis, 2003).

 

Não obstante ter realizado muitos dos seus trabalhos em torno dos papéis e do lugar da mulher na sociedade, no decurso dos últimos anos, também eles dedicados à ilustração e à publicação de fanzines, Alice Geirinhas vem construindo uma espécie de amplo álbum, onde tem retratado a realidade do país através dos pequenos e grandes mundos que o compõem: o núcleo familiar, a esfera política, o sistema jurídico, a comunidade artística. Desse  retrato sociológico faziam parte os apontamentos sobre a realidade e acontecimentos mediáticos que a artista ia acompanhando ao ilustrar crónicas jornalísticas, bem como muitas das suas histórias e memórias mais pessoais. Estas coordenadas e linhas de trabalho que persegue permitem, de um modo mais evidente, verificar como através do seu trabalho Alice Geirinhas tem desafiado qualquer proximidade aos lugares normalizados do discurso e da imagem feminina nas artes.

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PEDRO CABRAL SANTO_Crime sem Castigo

Capa Pedro Cabral Santo


(Original: Sandra Vieira Jürgens, Pedro Cabral Santo: Crime sem Castigo, Porto, Mimesis, 2002).


Não sendo este um verdadeiro romance policial, a autora acedeu à fantasia da adaptação e ensaiou, de acordo com os parâmetros do género, um processo de descoberta em torno da obra de um autor contemporâneo. É sempre possível estabelecer uma analogia entre o papel do historiador e do crítico frente a uma obra de arte, e a prática do detective na investigação de um delito ou de um enigma a decifrar.

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PAULO MENDES_The best of…

Capa Paulo Mendes


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Antologia do Bom Comportamento» in AA.VV. (Óscar Faria e Paulo Mendes), Paulo MendesThe Best of… Vogue, Porto, Mimesis, 2002, pp. 25-35).


A prática da interferência, a dinâmica da fractura e da desordem constituem na obra de Paulo Mendes uma das orientações emblemáticas. É a própria esfera do exercício da sabotagem que advém horizonte referencial do seu projecto, aquando da sua primeira mostra individual, há dez anos, na Galeria Zero. Nessa ocasião realiza “The Conversation” (1992), peça que adquire um valor simbólico por nela se evidenciarem as características e qualidades transgressivas que norteiam os princípios do seu método de trabalho. A peça, através do conjunto formado por uma mesa e pela relação incoincidente de duas cadeiras, desafia a possível sensação de harmonia reinante, colocando em destaque a ideia de antagonismo e de impossibilidade dialógica. Para a caracterização deste ambiente conflituoso e para desestabilizar ainda mais a imagem de uma possível convivência pacífica entre os dois interlocutores, concorria ainda a natureza do registo sonoro que ecoava por todo o espaço da instalação. Tratava-se de uma composição de Stockhausen produzida por receptores de onda curta, cuja estrutura conceptual baseada nos valores da aleatoriedade e dissonância vinha reforçar o sentido de disrupção comunicativa.

É a mesma sensação de turbulência e de perversão da ordem comum a que encontra mais tarde correspondente expressão no projecto individual “Karaoke Life Project / #2 Kaleidoscope Frenzy”, realizado na Galeria João Graça em 1999, no qual, sob uma atmosfera carregada e amplamente significante, o artista dá continuidade ao questionamento da uniformização consensual e abstracta dos comportamentos. Ainda que aqui a abordagem surja transposta para a esfera mais intimista da experiência dos afectos, tratando-se sobretudo de um itinerário marcado por apelos sexuais e voyeurísticos, onde a exacta referência aos territórios ficcionais de J. G. Ballard e de David Cronenberg deixa entrever o papel da tensão física e emocional perante o desafio de superar a alienação dos sentidos. Caso exemplar dessa evocação é “Kisser” (1999), uma das obras que compõem esta instalação. Trata-se de uma peça vídeo na qual o domínio do relacionamento amoroso é retratado nos termos da complexidade psicológica provocada pelo comportamento de duas personagens femininas que, no ecrã, se envolvem num acto a cada momento esperado, mas nunca consumado – o beijo. Frustrada a expectativa de desfecho harmonioso da sequência fílmica é pois a implicada sensação de falha a que ensombra a própria imagem-ícone de união perfeita.

Deste entendimento singular da intervenção artística resultariam não apenas trabalhos onde as manifestações e os traços mais característicos da contemporaneidade se tornaram objecto de reflexão, como em “Kiss me stupid / 35 Years of Love” (1995)[i], mas também um núcleo de obras onde o plano político é abundantemente representado e a perspectiva autoral fortemente marcada pelo significado intervencionista do discurso. (…)


[i] Para além desta, podemos salientar as obras “Naked Kiss / Fucking Television” (1995), “E[x] – Romance (Surgical Plastic Love) (1997) e “Morphing Mosh (House # 2) / Transglobal cultural remix with a set from a brazilian soap–opera depicting Portuguese immigration, some local cultural elements, a brazilian stand-up comediant and other multicultural curiosities acquired in the city of Oporto over a three day period / Work in Progress” ( 2001).

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