ARTECAPITAL: 1, 2, 3, 4, 5, 6 anos


A ARTECAPITAL CUMPRE SEIS ANOS DE EXISTÊNCIA

Link: http://www.artecapital.net/noticias.php?noticia=2475

PARAR E PENSAR…NO MUNDO DA ARTE

Artistas, críticos e curadores têm-se esforçado por enunciar reflexões construtivas e exercer o seu sentido crítico em relação às condições atuais da atividade artística. A preocupação maior é parar e pensar, fazer o ponto da situação, aferir as muitas transformações ocorridas neste setor nos últimos anos e projetar novas possibilidades de ação e pensamento num futuro mais imediato. Neste artigo iremos resumir algumas delas e sintetizar o que se tem passado na crítica de arte, no comissariado, nos museus e evidenciar opiniões formuladas maioritariamente na imprensa internacional sobre as diferentes atividades do meio artístico. 

A Art Press publicou no mês de janeiro de 2011 a transcrição de um debate sobre as evoluções marcantes no mundo da arte no decorrer da última década, que teve o objetivo de fazer um balanço sobre as mudanças e as possibilidades de encontrar novas dinâmicas de trabalho, novos modos de escrever, de exercer o comissariado e de dirigir espaços culturais (1). Nesse debate, coube a Nicholas Bourriaud sublinhar um dos traços mais evidentes da década – o crescimento exponencial do número de propostas artísticas, de artistas, de curadores e de exposições, bem como a consequente dificuldade de abarcar uma perspetiva sobre a situação artística no atual panorama alargado da arte contemporânea. A ilusão de tudo conhecer esboroou-se e, segundo Thomas Boutoux, a popularidade das feiras e das bienais, permitindo que num curto período de tempo se possa ambicionar conhecer muito do que se produz e comercializa, constituem realidades associadas. Mas se a diversidade e a pluralidade de propostas são hoje maiores, ficou também visível o paradoxo referido, de haver uma menor singularidade nos programas expositivos realizados, quer em grandes exposições internacionais, quer em bienais existentes nos quatro continentes no mundo, como atestam as mensagens e-flux que diariamente informam sobre o que vai decorrendo nos vários continentes. É pois a reiterada presença dos mesmos curadores, dos mesmos artistas e do fator de industrialização afeto à descoberta de jovens artistas, que responde inversamente, ou seja, em sentido restritivo, à possibilidade expansiva oferecida pelo alargamento territorial da cena internacional da arte contemporânea.

Concomitante à multiplicação dos atores, dos lugares e dos artistas, há acrescidamente a perceção de que o mundo da arte se complexificou e que não é possível continuar a falar de um mundo da arte mas de diferentes mundos da arte, de um universo cuja composição integra mais indivíduos, novas profissões, mais coletivos, e acrescidas sensibilidades, interesses e missões, o que indicia uma maior maturidade e consolidação do setor. Apesar de as grandes transformações e mudanças serem positivas, não deixa contudo de ser percetível a progressiva saturação dos modelos estabelecidos, quer em relação à crítica ou à curadoria, quer em relação à realidade, ao lugar da arte na atual situação económica e social, que torna ainda mais evidente a precariedade do setor. As pressões económicas aumentam sobre as instituições, a programação obedece a critérios de popularidade, com a secundarização do valor artístico, da sua autonomia perante instâncias publicitárias, de marketing cultural, que deixa a claro os efeitos perniciosos do regime de fluidez consolidado entre setores e esferas, normalizadas as suas diferenças.

Martí Manen, num texto publicado na A-Desk (2), questiona o imobilismo e a paralisia do meio, a existência de uma certa vontade de que nada mude e tudo persista como era. Na sua opinião, é difícil encontrar diferenças programáticas entre as várias instituições artísticas e, na maioria dos casos, os espaços artísticos apresentam uma estrutura organizativa semelhante, aliada aos mesmos sistemas verticais de tomada de decisões e de modos de funcionamento. E no sentido de incentivar a experimentação, dirigida às instituições, a questão que coloca é a seguinte: “Como poderemos encetar a reformulação do presente, do futuro e do passado, quando continuamos limitados a um único modelo que nunca se coloca em dúvida?” (3)

Tendo em conta estes pressupostos, vejamos como se equaciona a evolução da crítica de arte. As intervenções suscitadas no debate da indiciaram que a precariedade do setor determina que os agentes críticos controlem sobejamente o que dizem e sofram o impacte do novo tipo de escrita à maneira “e-flux”, estilo de retórica de comunicado de imprensa com uma influência perniciosa na produção autoral. No mesmo debate foi ainda referido que os críticos passaram a ser invisíveis nos seus textos e que a crítica, tendo perdido o seu estilo, deveria reinventar-se, deixar que o leitor pudesse sentir que o crítico está a bater-se consigo próprio e não apenas com o mundo exterior.

Catherine David, em 2008, a propósito de um dos seus projetos em curso, comentava em entrevista (4) que as formas de apresentar o trabalho deveriam ser vivas, já que a realidade muda constantemente, não é estática. Perante a falência da noção de um saber estável, definido, propunha documentar o seu trabalho com recurso à ideia de cadernos, por se tratar de um formato e modelo de produção escrita mais aberto, em alternativa ao comum catálogo. Também em 2008, Chus Martínez afirmava a necessidade de incrementar uma transformação na vida cultural, de atuar no sentido de criar espaços de liberdade para investigar, arriscar, especular, incentivando uma mudança nos vocabulários que falam de arte e nas estruturas argumentativas associadas à produção artística (5). Uma das possibilidades será então pensar a escrita a partir de condições e de uma visão performativa da linguagem, em detrimento de uma visão descritiva, pragmática, caracterizada pelo seu fechamento e por pretensões de objetividade.

Mais recentemente, ecoou a ideia da existência de uma crise do comissariado. Se a curadoria foi de facto uma atividade que nas últimas décadas viveu um ciclo de emergência, afirmação e protagonismo, ela vive agora, segundo a expressão de Montse Badia, momentos de saturação e questionamento. No seu texto “El comissariado en crisis”, Badia refere que estamos a viver, em quase todos os níveis de atividade, um processo de redefinição (6). No que diz respeito à crítica, às exposições e ao comissariado, trata-se de “reinventar-se ou morrer, essa é a questão”. A sua análise centra-se maioritariamente sobre os modelos curatoriais da Manifesta, que julga oferecerem uma boa cartografia da evolução do comissariado, e um dos aspetos focados é a crescente dissolução da autoria em relação ao tempo de Hans Ulrich-Obrist, a ubiquidade das ideias, a importância da projeção profissional, uma demasiada autorreferencialidade nas propostas e pouca visão ou risco nos modelos seguidos. No mesmo texto, Montse Badia aponta ainda para algumas soluções que poderiam contrariar os problemas enunciados: a seu ver, a resposta está em repensar, investigar a fundo, colocar questões relevantes, apostar mais no conteúdo e no risco e menos nas estratégias de networking.

Na verdade, ao contrário de outros setores, supõe-se que o contexto da arte contemporânea seja experimental, seja mais aberto ao exercício contínuo de investigar novas possibilidades. Numa entrevista publicada sobre a próxima Documenta, Carolyn Christov-Bakargiev sustentou que não sentia necessidade de apresentar um conceito para a Documenta 13 que dirige, pois a seu ver a estrutura conceptual das práticas curatoriais veio a transformar-se num cliché, num recurso superficial que não conduz a formas e práticas de emancipação (7). Assim, afirmou: “O que quero dizer é que existe uma jornada política a ser feita, que tem a ver com libertar cada um da obrigação de ser criativo, libertar cada um da obrigação do lazer, libertar cada um do trabalho imaterial pós-fordista. Talvez seja mais interessante apenas colecionar pedras, é por isso que não crio um conceito [para a próxima Documenta]” (8). No mesmo sentido, declarou que em detrimento do termo de curador prefere usar o de agente, por este estar mais associado à ideia de experimentação.

São os rígidos protocolos de exposição e a rigidez das estruturas institucionais que estão em causa. Segundo Anton Vidokle, no ensaio “Art Without Artists?”, publicado no e-flux journal, o modelo dominante de curadoria tem efeitos problemáticos sobre o mundo da arte, fazendo destacar a necessidade de rever a relação artista/curador (9). Segundo Vidokle, existe uma espécie de ameaça de a prática curatorial suplantar a prática artística, e de prevalecer uma conceção de artista como ator e de as obras de arte figurarem como adereços que ilustram conceitos curatoriais. O seu alerta continua neste sentido: um movimento nessa direção corre o sério risco de diminuir o espaço da arte, minando os seus produtores: os artistas.

Estes exercícios de questionamento e de crítica às condições de produção e mediação da prática artística, embora com algumas nuances, são fruto de preocupações e insatisfações cada vez mais partilhadas e discutidas pelos intervenientes. Possivelmente não existem respostas satisfatórias em relação à consolidação de novas dinâmicas e condições que propiciem a reformulação de hábitos e modos de funcionamento instalados. Mais importante do que isso será talvez o facto de estas reflexões contrariarem a indiferença generalizada e contribuírem para descobrir formas mais criativas e experimentais de atuar no mundo da arte.

NOTAS

(1) “Le Succès de l’art contemporain a-t-il un prix”, Art Press, n. 374 (janeiro 2011), p. 23-35. Debate com Sinziana Ravini (crítica e comissária), Thomas Boutoux (um dos fundadores da galeria casillo/corrales), Nicolas Bourriaud (Comissário), Harry Bellet (jornalista do Le Monde), Catherine Millet e Richard Leydier (Art Press).

(2) Martí Manen, “Buscando otras formas. Sobre situaciones estructurales, Manifesta e instituciones artísticas”. In A-Desk, n. 71 (12/01/2011). URL: www.tinyurl.com/6m7ywtf

(3) Ibidem.

(4) Entrevista a Catherine David por Xavier Antic – “No hay arte: hay procesos estéticos”. URL: www.tinyurl.com/7ljyj76

(5) Chuz Martínez, “Uqbar”. In: El Cultural, 13/11/2008. URL: www.tinyurl.com/6szrh3d

(6) Montse Badia “El comisariado en crisis. Notas a partir de los modelos curatoriales de Manifesta”. In A-Desk, n. 71 (12/01/2011). URL: www.tinyurl.com/7ea3bob

(7) Entrevista a Carolyn Christov-Bakargiev por Fabio Cypriano. In: Folha de São Paulo, 02/11/2010. URL: www.tinyurl.com/chvd2ar

(8) Ibidem.

(9) Anton Vidokle “Art Without Artists?”, e-flux journal, #16, maio de 2010. URL: www.tinyurl.com/72n86r7

Artigo publicado na ARTECAPITAL.

Continuar a ler: http://www.artecapital.net/estado_arte.php?ref=21

Una luz dura, sin compasión. El movimiento de la fotografía obrera, 1926-1939_MNCARS

(Original: Sandra Vieira Jürgens, “Una luz dura, sin compasión. El movimiento de la fotografía obrera, 1926-1939”, Artecapital, 2011. URL: http://www.artecapital.net/criticas.php?critica=318)

A exposição Una luz dura, sin compasión. El movimiento de la fotografía obrera, 1926-1939, comissariada pelo historiador de fotografia, fotógrafo e curador Jorge Ribalta — também co-autor da grande mostra Arquivo Universal, organizada pelo MACBA, que esteve presente no Museu Berardo, em Lisboa (2010) — é exemplo da vitalidade das investigações dedicadas à fotografia.

Una luz dura … reúne mais de 1.000 trabalhos, fundamentalmente fotografias, revistas, livros e filmes, que documentam o alcance histórico da prática documental fotográfica dos movimentos operários do período entre guerras. Para além do carácter retrospectivo desta mostra, que apresenta artistas e obras destacadas do movimento, subjaz a esta proposta curatorial a defesa de um ponto de vista, de uma tese revisionista sobre a história da fotografia deste período.

Jorge Ribalta considera que a visão da classe trabalhadora, a experiência documental dos movimentos operários, apesar de constituir um capítulo chave da história da fotografia, associado a nomes como Gerda Taro, Paul Strand, Henri Cartier-Bresson ou Walter Reuter, foi desconsiderado e marginalizado pela historiografia oficial e pela crítica moderna. Formada fundamentalmente no período da Guerra Fria, a partir de um paradigma marcadamente de cunho formalista, pró-americano, focou a visão fotográfica da modernidade numa concepção da fotografia como “art photography”, de “puro efeito visual” [por exemplo a Nova Visão de László Moholy-Nagy] ou num discurso sobre o género documental, o qual privilegiou um olhar sobre a vida social mais tarde veiculado por organizações como a Farm Security Association — entidade patrocinadora do levantamento dos efeitos da depressão económica no mundo agrícola no sudeste dos Estados Unidos, entre 1935 e 1943 —, e por revistas ilustradas como a Life Magazine.

Continuar a ler: Sandra Vieira Jürgens, “Una luz dura, sin compasión. El movimiento de la fotografía obrera, 1926-1939”, Artecapital, 2011. URL: http://www.artecapital.net/criticas.php?critica=318

10ª Bienal de Istambul – 2007

10ª Bienal de Istambul

10ª Bienal de Istambul


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «10ª Bienal de Istambul», Artecapital.net, 11 Setembro 07. URL: http://www.artecapital.net/opinioes.php?ref=55 )

 

Mais uma bienal? Não obrigada. Num contexto mundial saturado pela multiplicação de bienais, que são apontadas como um dos grandes perigos do sistema artístico, a tentação é a de uma vez mais reforçar o discurso anti-bienal e denunciar a excessiva institucionalização da arte, bem como a ordem consumista que rege o circuito das grandes exposições internacionais. Ainda assim, à margem das críticas, talvez seja acertado começar a pensar que o desencanto e o cansaço são os sinais do nosso tempo. Começo então por colocar uma questão que me parece essencial: O que é que procuramos num evento desta natureza? Porquê ir a Istambul? Vai-se na expectativa de que esta seja diferente da maioria dos eventos que pontuam a paisagem internacional? Mais periférica, menos espectacular e com uma identidade própria mais vincada, mais local e com linhas de trabalho mais interessantes do que as cerca de 110 bienais internacionais que se foram criando nos últimos dez anos? A sua localização geopolítica, no cruzamento de diversas influências culturais parece determinante. Não vamos a tempo, a bienal transformou-se num fenómeno fashion, e ao que parece tem sido vertiginosa a velocidade da mudança. Assim o diz Vasif Kortun, que já foi comissário de edições anteriores, e do Pavilhão turco na Bienal de Veneza, e é actualmente o director do Platform Garanti Contemporary Art Center, espaço artístico de referência em Istambul.

Continuar a ler: AC_10BIENALDEISTAMBUL


ARCO 2007


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «ARCO 07», Artecapital.net, 21 Fevereiro 07) [http://www.artecapital.net/perspectivas.php?ref=28]

Independentemente da posição de cada um face às feiras de arte, das análises que se possam fazer em relação ao cenário de vida social que propiciam, do interesse cultural destas iniciativas dirigidas ao consumo de artigos de luxo, a ARCO continua a ser um espaço de referência do meio artístico e do mercado de arte. Este ano realizou-se até com um renovado optimismo, motivado pela nova direcção de Lourdes Fernández, que delineou um novo horizonte de crescimento do certame, com a afirmação da vertente profissional e da lógica de mercado, tendo em consideração os dados mais actuais da globalização e da concorrência neste sector, com o aparecimento de novas feiras, ou o desenvolvimento de outros espaços de mercado, caso das leiloeiras, das páginas da Internet ou das galerias virtuais que facilitam informação, bem como a gestão e a aquisição de obras artísticas.

 

Continuar a ler: AC_ARCO07

Create a free website or blog at WordPress.com.