Squatters, Museu de Serralves

(Original: Sandra Vieira, «Squatters» in Arte y Parte: Revista de Arte – España, Portugal y América, n. 34, Agosto/Setembro 2001)

Crítica do Projecto de intercâmbio das Galerias de Roterdão e do Porto de 8 a 26 de Setembro e de Squatters/Ocupações, em diversos espaços da cidade do Porto de 24 de Junho a 16 de Setembro de 2001.

Diversas instituições culturais e galerias de arte das duas capitais europeias da Cultura, Porto e Roterdão, não pouparam esforços no desenvolvimento de iniciativas conjuntas que têm por objectivo dar a conhecer ao público as tendências actuais das artes portuguesa e holandesa. Em Maio realizou-se a primeira fase de um projecto de intercâmbio desencadeado pelas galerias do Porto e de Roterdão, que levou a esta cidade oito exposições com trabalhos de 25 artistas portugueses. Entre eles estavam Daniel Blaufuks, Gerardo Burmester, João Pedro Vale, Jorge Molder, Miguel Branco, Noé Sendas, Pedro Cabrita Reis, Rita Magalhães, Rui Serra, Ruth Rosengarten. A iniciativa teve o apoio da Embaixada de Portugal, Fundação Mondriaan e Rotterdam 2001 – Capital Europeia da Cultura, e terminará com a apresentação em Portugal dos projectos de nove artistas plásticos holandeses seleccionados em colaboração com as seguintes galerias de Roterdão: Cokkie Snoei, Galerie Liesbeth Lips, MK Galerie e Phoebus. Assim, num circuito que compreende sete galerias portuguesas é possível ficar a conhecer um número significativo de nomes da arte contemporânea neerlandesa: William Engelen expõe na Galeria Fernando Santos, H.F. van Steenstel na Alvarez, Risk Hazekamp e Eva Klee na André Viana, Gerco de Ruijter na Módulo Centro Difusor de Arte, Frank van der Salm e Madeleine Berkhemer na Pedro Oliveira, Eva Klee e Els Snijder na Por Amor à Arte e Paul de Kort e Els Snijder exibem na Quadrado Azul.
Pensada segundo idênticos princípios de intercâmbio cultural entre as duas cidades, a exposição Squatters/Ocupações, um projecto resultante da co-produção entre a Fundação de Serralves, a Sociedade Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura e o Centro de Arte Contemporânea Witte de With, em Roterdão, terá nesta cidade uma organização congénere. Trata-se de um evento comissariado por Bartomeu Marí, director artístico do Witte de With, Miguel von Hafe Pérez, responsável pela programação da área de artes pláticas do Porto 2001, e Vicente Todolí e João Fernandes, respectivamente director e director adjunto do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, que a partir da revisitação da tradição do “squatting” fizeram do sentido da “ocupação” dos espaços da cidade e da reflexão em torno dessa noção metafórica de experiência comunitária o cenário para a mostra de obras e intervenções de arte contemporânea de jovens artistas. Ao todo foram escolhidos vinte e seis locais da cidade do Porto, entre os quais lugares de lazer público, como a Casa de Serralves e o Palácio de Cristal, espaços privados, caso dos Ateliers da Lada e do Café Avis, e ainda edifícios destinados a diversos serviços públicos, como os CTT e o Palácio da Justiça. A lista dos artistas presentes, de diversas nacionalidades da Europa e da América do Sul, é também muito longa, mas de entre os quarenta e três nomes é possível destacar Aernout Mik, Alicia Framis, Ângela Ferreira, Damián Ortega, Francisco Tropa, Francisco Queirós, Francis Alÿs, Giuseppe Gabellone, Joahannes Kahrs, José Damasceno, Lívia Flores, Lúcia Koch, Miguel Palma, Tatiana Trouvé, Tone Scientists, Runa Islam, Urs Fisher e Veit Stratmann. E entre os locais a visitar, para além dos já mencionados, respectivamente, a Casa, Capela e Parque de Serralves, onde se encontram expostos trabalhos de um número significativo de artistas, o Palácio de Cristal e os Ateliers da Lada, o Espaço Maus Hábitos e o Norteshopping, espaço de grande circulação pública e consumo, no qual Alicia Framis apresenta Re_Mix building, estrutura que constrói improvisando um banco de sangue e um “sushi bar”, numa alusão ao temor das transfusões que encerra um apelo ao sentido cívico de quem doa e dedica atenção ao próximo.

Mundo Visível de Peter Fischli e David Weiss no Museu de Serralves

(Original: Sandra Vieira, «Fischli & Weiss» in Arte y Parte: Revista de Arte – España, Portugal y América, n. 34, Agosto/Setembro 2001)

Crítica da exposição Mundo Visível de Fischli & Weiss no Museu de Serralves.

Der Lauf der Dinge /The Way Things Go (1985-87) é sem dúvida a obra mais conhecida de Fischli e Weiss. Na peça os acidentes sucedem-se ao longo da cadeia formada por diferentes artefactos, e para lá da aparente sensação de desordem e impressão de catástrofe que dela resultam, é um paradoxal sentido de regularidade e banalidade que se evidencia nos vários equilíbrios instáveis encenados pela dupla suíça. Desde o seu encontro, que ocorreu no final da década de setenta, Peter Fischli (n. 1952, Zurique) e David Weiss (n. 1946, Zurique) elegeram a simplicidade e a normalidade como propósitos conceptuais, para a partir da sua obra constituirem o que os próprios definem como “uma enciclopédia de interesses pessoais”. Do corpo do seu trabalho fazem também parte réplicas de poliuretano produzidas a partir de objectos encontrados em ambientes familiares, na cozinha (Resteckfach/Divider, 1987) ou no estúdio (Tisch, 1992/93), e vídeos que registam situações banais. Assim, uma ida ao dentista (At the Dentist, 1995), a visita a uma unidade de fabrico de queijo (Cheesemaking, 1995), as viagens que os artistas fazem pela sua cidade, Zurique, ou o simples acompanhamento dos movimentos de um gato (Cat in Venice, 1995) tornam-se acontecimentos que se apresentam ao espectador na qualidade de intervenções artísticas. Tratando-se de exercícios de acumulação que revelam a atenção a objectos do quotidiano desprovidos do seu valor de uso e a actos destituídos de especial relevância, há ainda a destacar as características lúdicas de que se revestem as suas acções. São traços que além de reflectir uma atitude cúmplice perante as casualidades do mundo real deixam entrever o modo em que tem lugar a sua aproximação crítica ao sistema artístico no qual se inserem. Reflexão que à semelhança da observação dos detalhes da suas obras não dispensa a experiência de um tempo longo.

Ângela Ferreira na Luís Serpa


(Original: Sandra Vieira, «Ângela Ferreira» in Arte y Parte: Revista de Arte – España, Portugal y América, n. 34, Agosto/Setembro 2001)


Crítica da exposição de Ângela Ferreira na Galeria Luís Serpa Projectos de 22 de Setembro a 3 de Novembro de 2001.


A questão da identidade, a história colectiva e o sentimento de pertença são aflorados na obra de Ângela Ferreira (n. 1958, Maputo) mediante um exercício de certificação da memória. Nascida em Moçambique, Ângela Ferreira tem mantido através da sua obra artística uma forte ligação a Portugal. Aqui trabalhou durante a última década e a este período da sua actividade se reporta o núcleo de obras onde, de forma singular no contexto português, procedeu ao reconhecimento das imagens da história recente. A visão nacionalista do Estado Novo e o discurso ideológico ditatorial foram objecto de reflexão em Portugal dos Pequenitos (1994), e foi com semelhante sentido de indagação que em obras posteriores abordou a presença portuguesa em África. Amnésia (1997) é disso exemplo: O título assinala o frequente esquecimento votado a este período do passado nacional, e recorrendo aos elementos que integravam a sua instalação, Ângela procedia à reconstituição de um espaço de referências culturais entrecruzadas. A sala familiar apresentava mobiliário africano e objectos de cerâmica popular portuguesa, tornando ainda mais presente o testemunho vivencial através de material documental em vídeo. Já em outros trabalhos, expõe o registo histórico e joga com o peso da sua contribuição biográfica. Em o O Retrato da Casa ou as referências possíveis de uma intimidade (1999) é a partir da imagem da casa onde nasceu em Moçambique, um exemplar de arquitectura modernista, que alia a visão pessoal à evocação do impacte cultural europeu no seio do mundo africano. Muito recentemente a artista regressou à África do Sul, país onde estudou e viveu durante algum tempo. No espaço da Luís Serpa, Ângela Ferreira apresentará no âmbito do projecto 2001: Odisseia no Tempo, a instalação que exibiu no Centro de Arte Contemporânea do Witte de With, em Roterdão.

Cisco Jimenez e Pedro Tudela na Canvas

(Original: Sandra Vieira, «Cisco Jimenez» in Arte y Parte: Revista de Arte – España, Portugal y América, n. 34, Agosto/Setembro 2001)

Crítica da exposição de Cisco Jimenez e Pedro Tudela na Galeria Canvas de 8 a 28 de Setembro e 29 de Setembro a 20 de Outubro de 2001

Nas suas obras, Cisco Jimenez (Cuernavaca, 1969) usa as formas da arte popular para produzir comentários irónicos sobre a sociedade mexicana. Por exemplo, na peça Carpenter Barbie ao apresentar um martelo rudemente esculpido que representa a imagem da sua Barbie mexicana, Jimenez evoca a perfeita sintonia com o sentido expressivo e crítico das representações artesanais. A sua pintura, inspirada numa diversidade de referências, na tradição da pintura mural, nos cartoons e cómicos, integra composições de diferentes formatos, por vezes numa combinação sem hieraquias, lembrando a prática da colagem e assinalando a atmosfera do gabinete de curiosidades. Tus Pinches Greñas (1999) e Falopicosas (1999) sugerem isso mesmo. Nelas estão também expostos os elementos do seu vocabulário iconográfico, torneiras, estruturas cutâneas e orgãos internos do corpo feminino, que em conjugação absurda, obsessiva e provocadora, desecadeiam uma apropriação simultaneamente pessoal e surrealista da “beleza convulsiva”.

Pedro Tudela (n. 1962, Viseu/Portugal) também expõe na Canvas. Frágil é o nome do trabalho que realiza usando variados materias e suportes: pintura, vídeo e som. Artista plástico, “performer” e músico do grupo Mute Life Dept, Tudela tem convocado em anteriores projectos individuais os diferentes meios de que dispõe para aceder a todas as possibilidades do sentir. De entre os elementos que integram as suas instalações, deverá mencionar-se a criação, de sons associados às peças e ambiências sonoras que particularizam o cenário das suas exposições. Dessa abordagem faz também parte a representação de alvos circulares, marcas, vestígios e acidentes que apresenta, simulando experiências e movimentos que incitam o espectador a pensar o corpo. O tema central das suas obras. S.V.

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