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Afro Modern: Journeys through the Black Atlantic


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Afro Modern no CGAC», Artes & Leilões, nº 27 Agosto/Setembro 2010, p. 77).


“Afro Modern: Journeys through the Black Atlantic” é uma exposição com curadoria de Tanya Barson and Peter Gorschlüter que explora os efeitos que a teoria do Atlântico negro, da autoria do sociólogo Paul Gilroy, exerceu nos estudos culturais, ao nível da análise crítica da modernidade ocidental, e subsequentemente na releitura da história da arte do século XX.

Os seus pressupostos são muito claros. O livro do sociólogo inglês Paul Gilroy, The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness (1993) é a referência maior desta exposição, sobretudo a perspectiva expressa na sua tese: repensar a modernidade através da história do Atlântico negro, da experiência da diáspora africana no hemisfério ocidental, propondo a existência de uma cultura híbrida, a que chama de Atlântico negro, não circunscrita a etnias, a territórios, a fronteiras ou nacionalidades exclusivas (africana, americana, caribenha ou europeia). Atlântico negro é assim uma expressão, um conceito, uma metáfora para afirmar as estruturas culturais transnacionais deste oceano, entendido como espaço de crescimento e formação de uma cultura de fusão, sem tradições nacionais dominantes, produto da diáspora das populações negras, feita de relações, de encontros, de trocas e de fluxos comunicacionais contínuos entre a África, a América do Norte e do Sul, a Europa e o Caribe.

A partir deste ponto de partida, com estatuto de tese, a exposição “Afro Modern” trata de enquadrar num pressuposto curatorial interessante, visual e conceptualmente denso, a influência e o impacto que as diversas comunidades ou culturas negras transatlânticas exerceram na construção da modernidade e na arte do século XX até aos nossos dias. Dividida em salas que percorrem a cronologia estabelecida a partir de um programa cruzado de temas ou movimentos culturais e artísticos, como as vanguardas, o primitivismo europeu, o renascimento de Harlem, a antropofagia brasileira, o pós-moderno e o pós-negro, entre outros, são muitas as obras reunidas.

Muito associada à ideia de navegação, de mar, de oceano, de navio esta exposição não poderia expressar melhor a perspectiva em análise, a coerente representação de um mundo de rede de culturas, relacionais, assente na circulação, no movimento, na contaminação, numa desterritorialização que questiona os pensamentos nacionalistas, eurocentristas e afrocentristas. Outra das referências metafóricas fortes desta exposição é a imagem da sombra, da silhueta, do preto e branco, do Oceano Atlântico como um continente em negativo, expresso de uma forma emblemática e brilhante nas obras 8 Possible Beginnings or: The Creation of African-America, a Moving Picture by Kara E Walker (2005) de Kara Walker, Garveys’s Ghost (2008) de Radcliffe Bailey e Photo Booth (2008) de Lorna Simpson.

Continuar a ler: SVJ_Afro Modern_A&L 27

Editorial A&L 27


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Editorial», Artes & Leilões, nº 27, Agosto/Setembro 2010, p. 03).


O que é que um objecto editorial pode oferecer?


Lá fora, uma mesa de café, numa qualquer rua da cidade. Um livro. Cá dentro, na “mesa de trabalho”, projecta-se mais uma edição da A&L, a vinte e sete, dedicada aos livros, aos autores e leitores, aos artistas e designers, editores, produtores e livreiros associados à edição contemporânea. As abordagens são múltiplas, assinalam-se vertentes e declinações das publicações independentes nacionais e internacionais, diferentes edições de autor, projectos e livros de artista.

Iniciamos o número com uma conversa sobre livros de fotografia entre André Príncipe e Daniel Blaufuks; Paulo Mendes mostra-nos alguns livros de artistas nacionais e internacionais resgatados aos caixotes da memória; José Bártolo fala-nos sobre uma geração de designers editores, da criação de uma nova cultura do self-publishing contemporâneo e do contexto editorial mainstream. Jorge dos Reis escreve sobre livros de provas tipográficas, catálogos de tipografia, das letras com que veste as suas palavras; Gisela Leal regista-nos a actividade da Inc. livros e edições de autor, que é uma pequena livraria situada na cidade do Porto, dedicada às várias formas de edição em arte contemporânea.

Pedro dos Reis destaca a importância dos projectos editoriais na produção de conhecimento contemporâneo com uma entrevista a Caroline Schneider, da Sternberg Press, uma das mais reconhecidas pequenas editoras de publicações sobre arte e pensamento crítico do nosso tempo. Susana Pomba escreve sobre a idade do kindle perante o aparecimento dos e-readers e Luís Peixoto mostra-nos Os Lusíadas restaurados pela Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva. Leituras e práticas contemporâneas continua a ser o domínio de reflexão de Sílvia Guerra. Neste número contamos ainda com entrevistas e registos orais de curadores, João Silvério e Gerardo Mosquera, de Françoise Schein, autora da intervenção artística na estação do Parque, e de Miguel Cabral Moncada, com o retrato de uma leiloeira.

A A&L 27 é um espaço que fala de livros, seja através da escrita seja através de imagens e ensaios visuais. Tatiana Macedo e Daniel Malhão apresentam-nos projectos pensados para esta AEL e o ensaio visual com curadoria de José Luís Neto é neste número o resultado de um conjunto de inter-relações e colaborações específicas de onze artistas: António Júlio Duarte, João Paulo Serafim, Jana Seehusen, Ruth Hommelsheim, Ulla Jokisalo, Susana F. Cruz, Duarte Amaral Netto, Isabel Aboim Inglez, Tiago Silva Nunes, Nuno Tudela e Sílvia Prudêncio.

O que se poderá ainda acrescentar?

Talvez esta edição seja afinal um breve encontro com o nosso próprio mundo, à medida das páginas de uma revista, do papel onde se arruma a escrita, da escolha das frases, das palavras, das letras, e onde se compõem imagens de projectos, de estantes de livros, de arquivos, de colecções e apontamentos pessoais. Tão somente isso.

Continuar a ler: Editorial_A&L 27

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