Entrevista com EDUARDO MATOS

Eduardo Matos, O plano, 2009. Fotografia 35 mm.


(Original:
Sandra Vieira Jürgens, «Eduardo Matos: Lugares à margem das cidades», arq./a: Arquitectura e Arte, n. 67, Março 2009, pp. 80-83).

Eduardo Matos realiza os seus projectos artísticos no campo do desenho, da fotografia, da escultura e do vídeo. Um núcleo da sua obra é desenvolvida com experiências de trabalho que realiza em lugares específicos, improváveis e em extinção, mediante observações de contexto.  Em Março e Abril, a Galeria Quadrado Azul, em Lisboa, exibe o seu trabalho. A mostra intitula-se “Mesa” e nela Eduardo Matos apresenta cinco trabalhos realizados entre 2008 e 2009, com recurso a diaporamas, fotografia, desenho e escultura.

Sandra Vieira Jürgens: Tive a oportunidade de ler a sua dissertação de Mestrado em Práticas Artísticas Contemporâneas, que realizou na Faculdade de Belas Artes do Porto, e achei interessante o facto de referir em relação ao desenvolvimento dos projectos, a importância que concede ao tempo, ao decorrer do tempo e à experiência da observação e da espera. O seu trabalho também está marcado por uma espécie de fascínio pelo silêncio. Consegue manter esse método de trabalho, sobretudo hoje quando a produção está orientada por valores opostos? Fazer arte é ter essa liberdade?

Eduardo Matos: Para responder a esta pergunta terei de falar de algo que está para além do período de tempo concreto do fazer artístico. Tenho de falar também da vida que se tem, que se leva. E eu, desde há alguns anos, não consigo distinguir as fronteiras, quando uma começa e a outra acaba, mas não quero dizer com isto que esteja sempre a trabalhar. Mas existe um tempo e existem diferentes ritmos que adoptamos ao longo da vida. Esse tempo que refere na pergunta, foi-nos roubado, é-nos negado, a par de muitas outras coisas importantes, como o desejo. Paralelamente nunca pensei a actividade artística como algo parecido com qualquer outra actividade humana, acho que simplesmente não o é. Em certa medida uma parte do meu trabalho tem sido conquistar esse tempo para mim. Faço porque o desejo e faço-o porque o trabalho assim me ensinou e exige.

SVJ: Que valor concede ao papel do mito romântico do artista inspirado, “le maudit”, “o marginal”?

Eduardo Matos – Um núcleo da minha produção artística é realizada em contextos específicos, e nesses lugares, que tenho escolhido para trabalhar, pretendo seguir um trabalho de observação que por vezes é exaustivo. Implica ter paciência, passar horas de espera até que ocorra um determinado acontecimento ou surja uma determinada luz, e só posteriormente desenvolvo um trabalho de tradução de tudo isso.

No caso do trabalho “Expedição” (2008) desci, com uma câmara fotográfica e um tripé, a uma enorme infra-estrutura inactiva, construída abaixo da superfície –  sabe-se lá por quem, com que propósito e se alguma vez terá sido usada – que dava a ideia de ser uma rede de túneis. Estando lá em baixo e nessas circunstâncias há muito pouco espaço para a improvisação ou para a imaginação, pese embora me custe a acreditar que exista alguma arte sem uma percentagem desta.

De resto a figura do herói que está implícita na sua pergunta, foi algo que esteve sempre presente na arte, na literatura, na banda desenhada, no cinema e que consumi inicialmente em casa. Havia os livros do Jack London, de Joseph Conrad, do Philip K. Dick, e da dupla Christian Godard e Julio Ribera. O Axle Munshine, “O vagabundo dos Limbos”, herói de banda de desenhada que era um aventureiro que cruzava universos na sua nave invencível, o Golfinho de Prata, à procura de uma mulher que lhe aparecia numa máquina e lhe permitia sonhar deliberadamente e gravar em vídeo as suas visões, acompanhado por um fiel andróide e uma jovem Ethernauta. Mas havia também a figura do anti-herói presente na obra O Castelo de Kafka e no O Estrangeiro de Camus. E havia também os ditos autores malditos como Rimbaud, William Blake e Baudelaire ou todos aqueles pintores do século XIX que se alimentavam com absinto. Cresci com tudo isso e todas essas histórias fizeram sempre parte do meu imaginário, dos meus mitos.

SVJ: Precisamente, alguns dos seus trabalhos estão associados a lugares que se formam na margem e à margem das cidades, terras esquecidas, que por vezes descobre ao desviar-se da estrada principal. O que encontra neles?

EM: O que me interessa nestes lugares é o facto de eles indiciarem em certa medida uma estrutura de algo maior, visível à superfície. Na melhor das hipóteses, são todos lugares em crise, que apontam ou dão conta de um colapso eminente. Projectam um tempo mental que tombou para trás e para a frente, e que nos assombra com o poder do desastre. Esses lugares produzem uma estranha ressonância e de alguma forma o meu trabalho consiste em replicar essa ressonância.

Estes lugares têm pouco ou nenhum valor material. Não estão sujeitos a princípios de posse, autoridade e arbitrariedade e não são reproduzidos como quase tudo nos nossos dias. E não o são, porque são indesejáveis.

No projecto “Sarro” (2008) eu procurava ver nas ruínas de uma casa, o que dela restava, a sua história, ou melhor dito, que história contava ela. Aqueles restos mortais de uma ausência representavam um conjunto maior a que em tempos pertenceram. Walter Benjamin referia-se às ruínas – como portadoras de uma história em processo de desaparecimento – enquanto lugares desactivados no presente. Mas como lugares, eles são portadores de uma mensagem do passado, e como tal convertem-se em parte do presente.

SVJ: E como é que os encaras, sobretudo Interessa-lhe a nostalgia, o romantismo da perda destes mundos em vias de desaparecimento, as suas questões sociológicas, e documentar essas realidades em suporte vídeo?

EM: Nos vídeos iniciais, realizados no interior do Minho, é me difícil escapar a essa ideia de romântico. Entendo todo este projecto como uma espécie de diário, que se vai escrevendo com maior ou menor assiduidade, não tanto no que nela é característico e singular mas antes, no que a partir da observação de enormes transformações sucedidas nas últimas cinco décadas, é espelho e condição do nosso tempo. Faço-os como peças individuais e autónomas, mas confesso que me agrada a ideia de que no final, elas possam também ser uma espécie de documento. Talvez seja uma contradição. Mas em relação a alguns trabalhos mais recentes, é muito comum as pessoas referirem de que existe neles uma certa cientificidade. Na parte que me toca agradeci sempre os comentários. Todavia o que neles parece ser abordagem, método, investigação arqueológica e antropológica, um certo historicizar sobre as coisas a que se referem, servido pelas ferramentas discursivas, é exactamente aquilo que eu pretendo distorcer, expandir num subtexto. Existe e existiu sempre problemas na tematização e na ideia de funcionamento de uma forma de construção de relações e de unidades de experiência. Essas formas têm quase sempre o problema que é o efeito totalizante do seu discurso.

E se o que estou a referir diz respeito à arte, e a meu ver diz, é sobretudo por essa capacidade que a arte tem de através da sua ilimitada imaginação, da sua elasticidade e insubordinações, revolver este terreno e expandir as suas fronteiras. O problema principal que os sistemas discursivos enfrentam, radica em saber como se deve realizar a reconstituição da totalidade a partir de uma colecção de fragmentos. A arte tal como eu a entendo, está excluída desse problema se assim se pode dizer, funciona à parte desses sistemas discursivos que entendem os objectos como expressão de uma subjectividade individual e excluem a sua participação num movimento mais amplo da produção cultural.

Pelo caminho, o que eu tenho à minha disposição e o que me interessa trazer para o meu trabalho, são esses inúmeros jogos de polémica entre o subjectivo e o objectivo, entre a autenticidade e o falso, o que só por si, não é nada de novo na arte, basta olhar para toda a tradição pictórica.

SVJ: Como é que selecciona o que dá a ver e o modo como o faz?

EM: Acontece quase imediatamente saber o que é pode ser um vídeo, um diaporama ou um desenho. É simultaneamente a natureza das coisas que me são dadas a ver, as superfícies, os objectos, a actividade humana ou uma determinada luz, e a especificidade do médium que o sugerem e determinam. No final há um trabalho de selecção sobre o que poderá entrar ou não, e aqui é que o trabalho se complica, porque é raro ter as condições espaciais e técnicas que o trabalho exige para ser mostrado. Por exemplo, não raras vezes as pessoas com quem os artistas se envolvem, não percebem a natureza do trabalho, os seus processos e as suas exigências. É um problema partilhado por muito outros colegas e no final perde-se rigor.

Nas minhas instalações, a ideia de simulação, de percurso, de camadas de informação é algo que tento potenciar, gosto de as pensar como fragmentos que constroem  uma trama maior que tem em conta inúmeras e distintas formações discursivas.

SVJ: Actualmente para onde é que o seu olhar está direccionado?

EM: Estou neste momento, uma vez mais, a trabalhar a partir de um contexto específico, situado a norte de Lisboa. É um vale encrostado entre duas escarpas, e no centro passa um pequeno rio. Nos últimos anos quando realizava as minhas viagens em auto-estrada do Porto para Lisboa, prestava sempre atenção àquele pequeno trecho da paisagem que se apresentava do meu lado direito. Recentemente tive a oportunidade de cronometrar esse período de tempo: para quem se desloca a 120 km hora, são exactamente 21 segundos. A determinada hora do dia e quando a inclinação do Sol é maior, faz-se sentir uma penumbra no vale, como se a noite chegasse ali primeiro.

SVJ: Gostava que me falasse da concepção da exposição na Galeria Quadrado Azul?.

EM: A exposição reúne cinco trabalhos realizados entre 2008/09, dois deles já apresentados em outros contextos. O título é “Mesa” que e um nome emprestado pela escultura que estará em exposição. Este título é a nomeação evocativa da própria mesa de  trabalho onde por vezes acontece encontrarmos e dispormos material que temos em mão.

Partindo do pressuposto do que pode ser uma exposição, ou de uma ideia de exposição, “Mesa” poderá se entendida como um percurso por diferentes trabalhos que tenho realizado. Pretendo que seja um diálogo e não se trata tanto de encontrar nela um projecto conceptual unificador. Mas espero que o público possa encontrar através da experiência desta exposição, da singularidade de cada um dos trabalhos um certo eco do que ali acontece.

SVJ: Como está a decorrer a experiência da residência que está a realizar na Zé dos Bois (ZDB)?

EM: Esta é a primeira vez que faço uma residência artística. Inicialmente em conversa com o Natxo Checa tínhamos chegado à conclusão de que mais do que desenvolver um trabalho ou um projecto no período de tempo da residência, o que interessava era iniciar um diálogo, o que deu origem a algo maior que a residência. Aconteceu assim, de uma forma simples e natural.

Estamos a desenvolver um projecto a partir do vale que referi acima, não temos data para a sua conclusão e irá ser mostrado a seu tempo na ZDB. O nosso trabalho na residência, tem sido sobretudo conhecermo-nos, falar e pensar nisto que tenho em mãos e neste momento já estamos em campo, a trabalhar e conquistámos um tempo para nós, que é sempre preciso para projectos desta natureza. Simultaneamente, a residência permitiu-me conhecer melhor a cidade e também os meus colegas de residência e o trabalho que desenvolvem.

Continuar a ler: Sandra Vieira Jurgens_Eduardo Matos_arqa 67

Create a free website or blog at WordPress.com.