ARTE DOURADA_Feiras e bienais de arte

Cory Arcangel_Frieze Projects 2008_Fotografia: Dominick Tyler_Cortesia Frieze Art Fair

Cory Arcangel_Frieze Projects 2008_Fotografia: Dominick Tyler_Cortesia Frieze Art Fair


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Arte Dourada. Entre Feiras e Bienais», Artes & Leilões, nº 10, Setembro 08, pp. 6-15).


O universo de acontecimentos do mundo da arte contemporânea surge cada vez mais marcado por encontros internacionais. O calendário indica-nos que, entre Setembro e Dezembro, irão realizar-se 32 feiras de arte contemporânea. De entre elas, podemos referenciar a ShContemporary Fair, que tem lugar em Shangai, em Setembro, bem como as célebres Frieze Art Fair, em Londres, e FIAC, em Paris, que decorrem em Outubro, e a Art Basel Miami Beach que se realiza em Dezembro. Novembro é o mês em que, de 19 a 24, decorre a feira internacional de Lisboa, a Arte Lisboa. O número de certames é significativo e para a organização dos eventos, o próprio exercício de encontrar as datas mais apropriadas para a sua inauguração pode constituir um verdadeiro quebra-cabeças.

Nos anos 90 foram criadas a Art Moscow (1995), a Art Forum Berlim (1996), a feira de Toronto (1999) e, desde a viragem do século, outras novas feiras surgiram para acompanhar a nova ordem mundial e as transformações do mercado. É o caso da feira de Rotterdam (2001), da Frieze Art Fair (2002), e da Art Basel Miami Beach (2002), gémea da suíça Art Basel, considerada a mais importante feira mundial; ou ainda a feira de Tokyo (2006) e a Hong Kong Art Fair (2008), cuja criação veio reforçar o protagonismo do continente asiático como um dos eixos internacionais emergentes e de maior efervescência artística do momento.

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Entrevista com SUSANA CHIOCCA. Processos performativos

Susana Chiocca_Conversas Privadas_2005

Susana Chiocca, Conversas Privadas, 2005

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Susana Chiocca: Processos Performativos», arq./a: Arquitectura e Arte, n. 61, Setembro 2008, pp. 76-81).


A actividade performativa de Susana Chiocca (Lisboa, 1974) constitui o fio conductor desta entrevista em que se analisa o processo de realização e a investigação que a artista vem tecendo em torno da teoria e da prática artística. Nesta apresentação será possível aceder a uma série de questões desta pesquisa e às produções artísticas que dela resultaram. Paralelamente, Susana Chiocca dirige a Sala, projecto de apresentação de intervenções performativas de autores de diversas áreas localizado num apartamento da baixa do Porto.

Sandra Vieira Jürgens: Quando é que se iniciou a sua convivência com o mundo das artes plásticas?

SC: Foi, sobretudo quando entrei para o curso nas Belas Artes do Porto a partir de 1994.

SVJ:  A actividade performativa é um dos eixos fundamentais da sua obra. Essa ligação existe desde o início da sua trajectória? De que forma nasceu esse interesse? Esteve ligado a condições e referências da sua formação artística?

SVJ: A performance é mais um meio no qual vou trabalhando, para além de muitos outros. Não o considero mais importante ou mais presente ao nível do trabalho prático que desenvolvo nas áreas do desenho, do vídeo, da fotografia, ou do som, por exemplo. Penso que pelo facto de estar a realizar uma abordagem teórica nessa área e, ao mesmo tempo, o projecto d’a Sala ser dedicado à performance, é natural, não embora irritante, a focalização exterior nesse ponto. O meu interesse pela performance é evidente mesmo enquanto prática artística, mas para mim, o desenho é, até ao momento, o meio que me permite criar ligações com todos os outros media; muitas vezes, quando trabalho mesmo ao nível do som, tudo começa num desenho.

Falando, então, mais especificamente sobre a performance, as primeiras experiências surgiram ainda na Faculdade de Belas Artes do Porto, nos últimos dois ou três anos do curso. A primeira experiência mais performativa foi em 1997, no Em+Ventos e tratava-se mais de uma jam, na qual vários objectos estavam colocados numa área delimitada no chão, com os quais interagíamos quando sentíssemos essa necessidade. Depois para uma cadeira do 4º ano, em 1998, eu e mais dois colegas (o João Sousa Cardoso e o Joaquim Fontes), abordámos o trabalho de Joseph Beuys através de uma performance, que incluía vídeo e som. E, ao mesmo tempo, dois colegas nossos o Alexandre Costa e o Jorge, desenvolveram alguns trabalhos performativos para os quais requeriam a participação de vários de entre nós. Mas naquela altura o contacto com a performance era mínimo, mesmo através dos livros, lembro-me de ter assistido ao Co-lab, Faladura no antigo ANCA (actual TECA) e também no Rivoli e tínhamos dois colegas mais velhos o Bento e o Victor Lago e Silva que realizavam trabalhos performativos. Os trabalhos que se aproximavam mais à área da performance tinham sido realizados em fotografia em 1999 e nos anos seguintes. Foi apenas em 2002 e 2003, que a questão da performance surge mais acentuadamente. Nesta altura estava a viver em Lisboa, e foi aí que comecei a colaborar em co-autoria e interpretação com o Alexandre Osório. Apresentámos três trabalhos nossos (Sem Título; Eramos tão felizes – que incluía também um trabalho em fotografia; e um outro a convite, em que éramos os intérpretes (Alheava – ditado de Manuel Santos Maia, em 2003) e o último 1+1 → -1 inacabado em que fizemos uma apresentação informal. Já em 2003 comecei a fazer performances sozinha e em colaboração com outras pessoas, como: Sentidos #2 integrada na exposição Falar das coisas como elas são; Sexualidades uma acção em que precisava da colaboração de outras pessoas, cujo trabalho consistia na inscrição de frases nas t-shirts; ou Window Licker com o Luís Barreto. Entre 2003 e 2004, apercebo-me melhor da direcção que queria tomar, ou melhor, daquilo que para mim fazia sentido ir ao encontro.

SVJ:  Que aspecto valorizas mais numa intervenção performativa?

SC: Tal como em qualquer outra área, o conteúdo e o modo como o mesmo chega até nós.

SVJ: Quais são as linhas que definem a sua prática artística? Trabalha muitas vezes sozinha e no enquadramento dos seus trabalhos evoca a questão da não actuação, bem como a de invisibilidade.

SC: São conceitos com os quais me tenho vindo a preocupar nos últimos anos. A questão da invisibilidade está muito presente em alguns trabalhos, sobretudo ao nível do desenho desde 2000. Por um lado, esconde-se para se descobrir e de alguma forma a questão de não dar tudo de uma só vez, de ter que haver um esforço, um querer, ou então a possibilidade de o acaso fazer acontecer algo. Um projecto dessa altura, que só realizei em 2004, – expeusition/desenho – consistia na disposição de uma faixa negra na parede, a tinta-da-china com cerca de 15 cm, em redor de um quarto (mais ou menos a 1,5 m do chão) que remetia para uma espécie de paisagem. De uma forma quase invisível, havia um corte nessa faixa, ou seja, via-se um milímetro da parede; de um lado estava desenhado uma mão a grafite e do outro um círculo; esta intervenção incluía também um trabalho sonoro, que era um pormenor que poderia passar completamente despercebido e as pessoas ficarem apenas com uma primeira leitura do trabalho.

Além dos desenhos sobre papel (em que utilizava muito o desenho a grafite sobre guache preto, ou desenhos a pastel branco sobre fundo branco), fiz algumas instalações de desenho desde 2001. A princípio, fazia pequenos desenhos a grafite em paredes, que só eram visíveis se nos aproximássemos das mesmas. Até que mais tarde, em 2004, os desenhos passaram a ser maiores, mas a invisibilidade continuava presente precisamente por causa da utilização da grafite. Num desenvolvimento, esses desenhos tornaram-se e quiseram-se visíveis numa espécie de resumo com o trabalho live-act expeausition que realizei em 2004. Ou seja, realizei várias instalações até esse culminar de uma espécie de diário visual existente ao nível da memória, de forma a tornar o desenho parte integrante de uma acção performativa, juntando desenho/performance e também a visibilidade/invisibilidade.

A partir desse conceito de pele e dos desenhos à volta do mesmo, desde 2005 construí uma nova série de desenhos, em folhas de papel de engenharia, cuja inscrição é feita com x-acto que remete para os entrelaçamentos, as linhas visíveis na própria pele, as quais neste caso só são visíveis mais uma vez, a contra-luz ou colocando um qualquer papel por baixo dessas folhas. Estes mesmos ganharam uma tridimensionalidade, através da mesma lógica de zoom da pele, com uma instalação de fita-cola transparente num espaço, apenas visível pela incidência da luz.

A questão da não actuação, sobretudo na performance, está muito relacionada com o facto de querer estar presente sem figurinos, maquilhagem, etc. Comecei a trabalhar sozinha a esse nível e a retirar tudo o que achava superficial, ou que simplesmente não me interessava. E não me interessava estar a representar uma personagem. Queria conseguir estar sem representar, e partindo desse conceito do Jean-Luc Nancy de expeausition, um estar-se mais próximo da nossa própria pele e sem rede, sem protecção. Mas a questão da representação acontece sempre, por mais que nos dispamos, ela já está impregnada em nós, mesmo no quotidiano. Trabalhos como Conversas Privadas de 2005 para além de outras conclusões, permitiu-me mais uma vez confirmar esta questão do ser-se actor. O trabalho em que consegui estar mais entregue a mim própria foi Rastos de 2007, uma vez que a acção ia de encontro a pessoas que passavam e não havia um local específico de apresentação. Eu simplesmente lia uma passagem do Livro Corpus e oferecia também uma folha artificial de bolo de aniversário. Creio, mesmo assim que é no trabalho de vídeo-performance Seis preparativos para… de 2005, que esta questão da não-actuação é resolvida. Uma vez que o trabalho acabou por ser uma mostra do processo. Eu tinha uma ideia específica da performance a ser realizada e filmada, mas o que aconteceu é que antes de realizarmos as várias tentativas para a mesma, que neste caso foram seis, colocávamos as câmaras a gravar, o que fez com que tivéssemos o registo de todas as explicações que ia fazendo à Aga no decorrer dessa espécie de ensaios. O que me lembrei de fazer foi precisamente editar os ensaios. Não temos acesso à performance em si (embora também exista com Trabalho final e podem ser apresentadas em conjunto ou individualmente), mas sim ao processo, que é algo que normalmente não se mostra; por outra parte, como à partida não estava previsto usar essas filmagens, estamos sem as preocupações do registo.

Continuar a ler: SVJ_susanachiocca_ARQ61

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