Gustavo Sumpta: Primeira Lição de Voo Pobre não tem Metafísica

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Gustavo Sumpta: Sem Manual de Instruções», Texto de exposição de Gustavo Sumpta sobre a exposição «Primeira Lição de Voo Pobre não tem Metafísica», IN. TRANSIT #32, Porto, 2007).

A trajectória de Gustavo Sumpta ocupa uma posição singular no panorama artístico. Desde o começo ele manteve uma liberdade de actuação que se estendeu a campos como o teatro, o cinema e a performance. No campo das artes plásticas, goza igualmente de uma posição não canónica. A sua prática não se circunscreve a uma disciplina nem ao domínio dos suportes mais reconhecidos no meio e torna-se sempre esquiva a catalogações.

De entre os seus trabalhos, gostaria de me deter na performance, que pode considerar-se o seu veículo privilegiado de experimentação e um campo decisivo da sua produção artística. Gustavo Sumpta não é um performer imerso no campo da arte contemporânea, mas um criador visual que busca deliberadamente o plano performativo para resgatar a vitalidade e a energia da criação artística. A sua obra traduz experiências vitais, cumplicidades fluidas entre estados de desassossego e quietude, de tensão e prudência, que consistem em experimentar os limites, o peso e a leveza de uma relação sensível e intuitiva com o mundo.

Constantemente à procura de sentido, os seus trabalhos podem ser descritos como ensaios, ou formas de pesquisa que se desenvolvem processualmente na execução de um acto. Sempre presente no espaço, ele executa, segundo variações, deslocações e construções com recurso a um número mínimo de objectos – frequentemente papel, cartão, peças e tábuas de madeira. Sumpta relaciona-se de uma maneira activa com os elementos, promove a repetição dos gestos e é a partir da relação física e espacial que estabelece com eles que dá corpo a uma situação/conceito/ideia. Em alguns momentos promove a tensão como método de exercício, faz e desfaz uma dada construção, um corpo reage contra a acção de outro numa linearidade que é assegurada pela sucessão e resolução de eventos, cujo sentido não bloqueia o espaço imaginativo do espectador.

Em PRIMEIRA LIÇÃO DE VÔO POBRE NÃO TEM METAFÍSICA presenciamos uma performance: tábuas e cavaletes de madeira são deitados ao chão, procede-se à formação de equilíbrios instáveis, e alguns materiais cedem ao peso do corpo do artista… Estamos perante uma performance que é ao mesmo tempo uma instalação de imagens espacialmente expansivas, de fronteiras instáveis, de formulação plástica e escultórica, que permanecem como peças de exposição.

O espectador aguarda um espectáculo, mas avesso à normatividade Gustavo Sumpta propõe-se não aceder às convenções que regem a nossa experiência. Sem procedimentos de interacção com o público, favorece a criação de um espaço mental que é sempre difícil de descrever. O que mais surpreende em algumas das suas intervenções é o modo de actuar, marcado pelo domínio do tempo e do espaço, em que o artista revela um estado de concentração extrema, um procedimento meticuloso, que no entanto não comprometem a naturalidade de execução. São formas de experimentar a resistência, que expandem a sua arte e, teste mais difícil, questionam a resistência do público. E essa é uma medida de expansão que define bem a ambição de Gustavo Sumpta.

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Entrevista com GUSTAVO SUMPTA

Gustavo Sumpta_IN.TRANSIT 07

Gustavo Sumpta_IN.TRANSIT 07


(Original: Sandra Vieira Jürgens, Entrevista a Gustavo Sumpta, Re.al, Lisboa, Outubro 2007).


Sandra Vieira Jürgens: Quando é que se iniciou a tua convivência com o mundo das artes plásticas?

Gustavo Sumpta: Começou com um amigo meu, o Eduardo Matos, que conheci quando fui viver para o Porto em 1988. Na altura havia uma galeria a que gostávamos de ir e havia a Casa de Serralves. Também frequentávamos uma discoteca chamada Lá Lá Lá que ficava no Centro Comercial Dallas onde íamos na noite de sexta-feira e na matinée de sábado. Depois, como o Eduardo tinha uma Suzuki 50, íamos para Serralves que era relativamente perto. Mas não fazíamos grandes conversas, tínhamos as conversas que se têm naquela idade. O irmão do Eduardo, o Jorge, também estava muito ligado à banda desenhada e acabei por ter esses conhecimentos por interposta pessoa. Era igualmente uma questão de empatia. Na realidade quando vim para Portugal deixei de ter amigos e tive de começar tudo de novo. O mesmo aconteceu quando vim viver para Lisboa em 94. Foi sempre um novo começo. (…)

Continuar a ler:  GUSTAVOSUMPTA_REAL

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