PEDRO AMARAL: Bad Boy Painting Comics

Pedro Amaral, Andy Warhol, 2007.

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Pedro Amaral: BAD BOY PAINTING COMICS», Galeria Quadrado Azul, Porto, 2007).


A pintura é a forma de intervenção de Pedro Amaral. Nas suas poderosas montagens, tão apelativas como politicamente comprometidas, o artista segue a tradição da prática de apropriação de materiais visuais, compondo fragmentos seleccionados a partir de variadas fontes. Os seus trabalhos combinam cenas figurativas retiradas de contextos como a banda desenhada, a publicidade, livros, revistas e enciclopédias ilustradas.

Com frequência, coloca lado-a-lado elementos de regiões e culturas diferentes, desde a americana, chinesa, indiana, passando pela “russo-soviética”, até à japonesa. É o caso da série de três telas “Indoor/Outdoor” (2001/2005) em que se reproduzem, por exemplo, cartazes de filmes da indústria americana, como James Bond, e de películas comerciais indianas “Made in Bollywood”, bem como imagens de danças havaianas ilustradas nas máquinas de flippers, e vinhetas da banda desenhada japonesa Manga, entre outros. Também, no tríptico composto por “Wrestling Palace”; “Sushi Bar/Karaoke Device”, “Love Hotel”, alude à sociedade japonesa e aos estereótipos que formámos dessa cultura. Nela, Pedro Amaral retrata a noite na grande metrópole que é Tóquio, apresentando formas de entretenimento, conjugando hábitos tradicionais (como as geishas e o popular combate de luta Sumo) e modernos.

Para além de os fragmentos utilizados preencherem a totalidade da tela, em termos espaciais, eles também atravessam diferentes períodos da história. Assim, várias parcelas da civilização remetem-nos para a questão da passagem do tempo, como se pode ver em trabalhos como “Beyond Planet Earth” (2006). Aqui, o espectador é conduzido ao longo de uma série de perspectivas sobre o percurso da humanidade, incluindo a aventura espacial, actividades produtivas reproduzindo um esquimó a pescar, um índio a caçar e cenas do quotidiano agrícola africano, americano e canadiano.

Embora estas fontes icónicas tenham frequentemente linguagens figurativas diferentes — o desenho pode ser quer realista quer estilizado, quer monocromático quer policromático —, Pedro Amaral associa-as, com aparente facilidade, de modo a formar uma homogénea construção de significados. A intenção irónica e crítica, constante nos seus trabalhos, consegue-se precisamente através do modo como realiza a montagem dos múltiplos fragmentos da iconografia da sociedade moderna e antiga.

Amaral tanto dispõe as imagens como se de vinhetas de banda desenhada se tratassem como justapõe ou sobrepõe os desenhos nas suas composições para criar uma visão panorâmica sobre determinados temas.

Na realidade, o seu percurso iniciou-se com a ilustração nos anos 80, o que veio a marcar o carácter crítico inerente ao conjunto da sua obra. E para além dos autores da ilustração que o influenciaram (Jack Kirby, Chester Gould, Jije, Hergé e ainda Robert Crumb e Charles Burns), interessou-se, desde cedo, pelos artistas da Pop Art.

Reconhecida pelo poder das imagens e pelo seu carácter sedutor, a arte Pop é uma base de trabalho para Pedro Amaral que nela procura a ambivalência do seu discurso. O artista combina o prazer visual, a crítica e subversão presentes nesta estética, sem descurar a difusão demasiado comercial e totalizadora também características da Pop. Explora, assim, as contradições do movimento, ao acentuar a tensão entre o cariz apelativo, sedutor e comercial da sua imagem e a provocação implícita no tratamento de alguns temas, como a relação entre a cultura e o comércio. À semelhança do que alguns artistas Pop fizeram, Pedro Amaral apropria-se de imagens, ilustrações, elementos gráficos já existentes para formar novas leituras. Em alguns das suas telas, com a ajuda de retroprojectores, redesenha motivos centrais ou simplesmente detalhes da produção de autores como Roy Lichtenstein, Richard Hamilton, Erró e Robert Indiana. Exemplo desta rede de apropriações é a sua obra “Templo de Song Lai” que, na parte superior, apresenta uma imagem de um trabalho que o próprio Erró já tinha “adoptado”.

Continuar a ler em: SVJ_Pedro Amaral_Quadrado Azul

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