A ACÇÃO DO ARTISTA-COMISSÁRIO


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «A Acção do Artista-Comissário», in Marte, n. 2– Legitimação na Arte, Setembro 2006, pp. 90-92).


Época marcada no domínio da arte contemporânea pelo lançamento de muitas iniciativas e exposições artísticas de carácter independente em relação ao campo galerístico e à acção desencadeada pelas grandes instituições culturais, os anos 90 são considerados como uma fase emblemática no que diz respeito à intervenção programática dos artistas plásticos na promoção pública da sua actividade artística.

Internacionalmente, este fenómeno ficou ligado à realização da exposição «Freeze» (Port of London Autority Building, Londres), no final da década de oitenta, onde o artista Damien Hirst reuniu um grupo de 16 estudantes e recém-licenciados do Goldsimths College. A mostra foi pouco visitada e escassamente criticada, mas veio a tornar-se o símbolo da reabilitação de estratégias com vista à apresentação pública de um segmento da actividade artística, inicialmente não inserido nos circuitos de mercado, e à afirmação de modelos não convencionais de circulação da produção artística.

Em Portugal, este fenómeno surge associado a uma nova geração de artistas que procura associar a sua actividade artística ao lançamento de projectos de comissariado individuais e de autoria colectiva, mantendo o desejo de alterar os parâmetros em que habitualmente decorriam a exibição e a recepção do fenómeno artístico. É nestas circunstâncias que tem lugar a reapropriação dos meios de produção e a realização de eventos que receberam o rótulo de exposições “alternativas”, por serem de concepção e gestão relativa ou totalmente independente das entidades normalmente responsáveis pela sua realização, e que, financiadas por dinheiros públicos ou privados, tinham em comum prescindir, por opção ou sem ela, do factor de mediação.

À semelhança do que acontece com a orientação da actividade do comissário independente, a natureza da prática curatorial dos artistas está ligada à realização de mostras desencadeadas por iniciativa própria e a formas de organização mais autónomas em relação às redes convencionais de exibição e circulação do trabalho artístico. De entre as motivações e razões para seguirem a actividade de comissariado paralelemente à sua actividade artística, podemos salientar: a necessidade de legitimar o seu próprio trabalho e encetar um esforço auto-promocional através da divulgação e exibição de trabalhos da sua geração; a possibilidade de intervir mais activamente em outros sectores do campo artístico, de modo a fomentar e consolidar a democratização e a dinamização dos canais da produção e recepção artística.

Pautado pelo desenvolvimento de uma análise crítica em relação às lógicas de actuação dos agentes e mediadores culturais, o movimento alternativo pauta-se e pelo delineamento de um quadro de intervenções que poderá ser idealmente encarado como uma zona protegida de criatividade e de liberdade para o artista, estando indissociavelmente ligado à emergência de percursos artísticos não legitimados pelos mediadores convencionais (crítica, comissários) e pelos espaços museológicos e galerísticos.

Prescindindo da mediação, o destaque vai para a constituição informal de grupos e para o desenvolvimento de redes de solidariedade e de cumplicidade baseadas na lógica da afectividade e em proximidades de cariz estético. A esse título importa salientar a actividade artística e curatorial de Paulo Mendes, Alexandre Estrela, Miguel Soares, João Fonte Santa e ainda o caso singular da formação Autores em Movimento, uma reunião coordenada por Pedro Cabral Santo, José Guerra, Paulo Carmona e Tiago Batista, que rejeitou de forma determinada a noção de colectivo, grupo ou movimento organizado para definir a sua acção, mas que ainda assim assumiu, nesses anos, segundo modos variáveis e singulares, a dimensão comunitária de intervenção artística. (…)

Continuar a ler em: SVJ_Artista-comissário_Marte

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