Entrevista com EDUARDO MATOS. Salão Olímpico

Eduardo Matos, I`m not happy so what, 2003. Chapa de aço e prata pura. Pormenor.


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Eduardo Matos», in arq./a: Arquitectura e Arte, n. 39, Set./Out. 2006, pp. 86-89).


Eduardo Matos (Rio de Janeiro) começou a expor no final da década de noventa e faz parte de um núcleo de artistas que tem organizado vários projectos independentes relacionados com as artes plásticas e a performance. Foi membro do colectivo Interdi+disciplinar+idades e um dos membros fundadores do espaço Salão Olímpico, que funcionou ao longo de dois anos, de 2003 a 2005, no salão de bilhares da cave do Café Salão Olímpico, na Rua Miguel Bombarda do Porto.

SVJ: Quando é que decidiu dedicar-se à actividade artística?

EM: Decidi dedicar-me à actividade artística algures a meio do curso de Pintura na Faculdade de Belas Artes do Porto e, já não era propriamente um jovem.

SVJ: E quais foram as razões que o levaram a estudar Pintura?

EM: Na altura, tanto quanto me lembro, o ensino público só oferecia o curso de Pintura e  Escultura e, preguiçoso como sou, devo ter pensado que o curso de Pintura era mais “leve”.

SVJ: Começou a mostrar trabalho em 1998. Desde essa altura, quais têm sido as linhas essenciais do seu trabalho artístico?

EM: A primeira intervenção que apresentei, de que me orgulho, foi um painel de desenho que mostrei numa exposição chamada “Imersões Parciais” em Guimarães. De resto, considero-a uma obra representativa de uma função estruturante no meu processo de trabalho: as primeiras ideias e os primeiros desenvolvimentos acontecem sempre com o desenho.

Depois, a certa altura os espaços que fui tendo para expor insinuavam e sugeriam também novas situações ou novas abordagens. A pintura mural, a escultura, os objectos apropriados começaram então a aparecer no meu trabalho e frequentemente surgem todos presentes num mesmo espaço. São relações com o espaço e diferentes códigos que procuro relacionar e confrontar.

Mais tarde, em 2001, por puro acaso, registei uma série de imagens com uma câmara de vídeo durante um passeio pelo interior do Minho e, meses mais tarde, revisitei e montei essas mesmas imagens tendo sido então confrontado com aquilo que me parecia uma realidade extinta, esvaziada, uma realidade esquecida, engolida… Estou a falar de Portugal, de um Portugal antigo que ainda pode ser visto, mas também do país moderno. E é neste confronto que ainda pode ser experimentado, no olhar e no examinar dessas transferências e mutações que, tenho vindo a desenvolver deste então uma série de trabalhos em vídeo.

SVJ: Consegue definir quais são as questões que lhe interessam abordar na realização das suas obras?

EM: Os elementos que utilizo no meu trabalho encontro-os no universo civil, nos seus códigos, nas suas normas e regras, nos acontecimentos, na história. São imagens, símbolos, objectos e fragmentos que inscrevo num espaço, numa composição, procurando relacioná-los entre si. Não são narrativas ou descrições, são imagens descontínuas que constroem realidades e  questionam os processos de organização, de orientação, a gerência, a direcção e a aprendizagem inerentes a esta ideia de sociedade moderna democrática.

De há um ano para cá tenho estado a trabalhar fora do atelier, julgo que a fazer o mesmo, mas por processos diferentes daqueles que lá aconteciam. É um trabalho que ainda não finalizei e por isso seria prematuro expô-lo aqui na sua totalidade. Posso dizer que apercebi-me de dois espaços que existem na cidade do Porto e que me despertam curiosidade: um descampado onde se formou um lago e um centro comercial construído nos anos 80 e, que apesar de passarem despercebidos na cidade, encontrei em cada um deles uma forma muito singular de ocupar e reinventar a sua utilização. Vejo-os como algo que transgride e que de certa maneira resiste a uma ocupação do território aleatória e confusa nos seus propósitos. E que até certo ponto, boicotam todo um ideal de  civilização, que  persiste na procura da eficácia, no conforto perfeito. Costumo chamar-lhes “Os intrusos”.

SVJ: Faz parte de um grupo de artistas cuja prática artística é acompanhada pela realização de outros projectos. Foi membro do grupo inter+diciplinar+idades que organizou diversas exposições e conferências e um dos fundadores do espaço Salão Olímpico, onde se realizaram várias exposições e outras actividades. Quais foram as razões que o levaram a integrar e a desenvolver esses projectos?

EM: Na Faculdade sentíamos um desejo, uma vontade enorme de conhecer e de nos relacionar com tudo o que a contemporaneidade nos podia dar e que achávamos pertinente para a nossa formação, para o nosso trabalho. Estou a falar de várias referências, de artistas, de coreógrafos, de cineastas, de teóricos, historiadores, críticos etc… Como a escola não nos proporcionava nada disso, o Manuel Santos Maia e a Liliana Coutinho avançaram com esse projecto de promover eventos, e mais tarde, eu e outros colegas entrámos para dar uma ajuda na organização e produção de todos eles, e não foram poucos.

E serviu sobretudo para nos conhecermos. Aliás, foi no seio de algumas dessas actividades e exposições que então se realizaram, que foram surgindo  as amizades e as cumplicidades. Por outro lado, as exposições “Norht by Norhtwest” que organizei com o Gustavo Sumpta na CALDEIRA 213 em 2001 e “To play and the Monkey Business” no ARTEMOSFERAS em 2002 foram também exposições que gostei muito de fazer e que foram fundamentais para mim, enquanto artista e também para arrancar com o Salão Olímpico em 2003.

SVJ: Em relação ao Salão Olímpico, como é que foi essa experiência de trabalho no meio artístico?

EM: O Salão Olímpico foi um projecto onde se mostravam artes plásticas e outras práticas artísticas contemporâneas. A nós não nos interessava construir uma  linha programática muito clara para o projecto ou propor um programa curatorial unificador desta geração de  artistas. E isso foi dito logo no editorial da primeira revista Olímpico que editámos. Estávamos sim, e continuamos a estar, interessados na singularidade do discurso que a obra  destes artistas propõe… Mas não existindo um certo distanciamento, muitas vezes torna-se difícil fazer as coisas de uma outra forma e eu acabo por estar demasiado envolvido nisto. Tem sido para mim um trabalho de fé, de amizade e cumplicidade, com os meus amigos e com o meu tempo.
É preciso dizer que quando acabámos os estudos, a realidade que nos esperava  não era propícia e o pouco que existia  não nos interessava. O lado institucional e os agentes da arte estavam  bastante distantes, e por sistema, tendem a ignorar as novas realidades e, quando o fazem, fazem-no sempre de uma forma desinteressante para se trabalhar: ou é um prémio, ou uma colectiva que mais parece uma rampa de lançamento de artistas. Mais recentemente as residências de artistas também se fazem quase sempre em sítios estranhos para se desenvolver um projecto, por exemplo numa ilha  paradisíaca algures no meio do Mediterrâneo…  Para além disso, a nossa ambição não era começar por aí. Era importante encontrar e criar um espaço de recepção crítica para os nossos trabalhos. E para consegui-lo também foi determinante a experiência que alguns de nós já tínhamos na organização de exposições e eventos, e os outros espaços que existiam na altura ou que já tinham existido na cidade. Caso do WC. CONTAINER, da Caldeira 213, do Artemosferas, Pêsegos Prá Semana, IN. TRANSIT, ou mesmo os exemplos que vinham da História da Arte e dos anos 90: o projecto da GALERIA ZDB, as exposições comissariadas por artistas plásticos, como o Paulo Mendes, o Pedro Cabral Santo, o Carlos Roque, o Alexandre Estrela, os Autores em Movimento e, mais tarde, o Manuel dos Santos Maia, que nos deram todas as pistas que precisávamos para criar um projecto nosso…

Salão Olímpico

SVJ: Considera que foram cumpridas as suas expectativas?

EM: No início do Salão Olímpico eu e os meus colegas estávamos todos desempregados e com pouco dinheiro. Naquele momento o governo de Durão Barroso tinha anunciado o colapso da economia portuguesa e da sua função pública e o país estava de rastos. Este espaço, esta solução de espaço, foi o que encontrámos de entre todas as soluções possíveis. E para nós tornou-se desde logo interessante a ideia de criar um projecto para aquele sítio situado na rua das galerias de arte – Rua Miguel Bombarda – , que já tinha um ritual instituído. No entanto, tínhamos imensas dúvidas em relação ao que poderia ser ali feito. O espaço era complicado! Como é que caberia ali arte? Como é que os frequentadores do Salão, do café e do bilhar, iriam reagir à nossa presença? Como é que as pessoas poderiam lá ir e em que condições? Que garantias tínhamos de que a exposição não fosse vandalizada logo no primeiro dia…Todas essas questões ficaram para o dia de abertura e para a primeira exposição. A partir daí todos os que participaram no projecto e todos que o acompanharam foram descobrindo passo a passo o espaço e o seu encanto e construindo a sua história…

Correu tudo muito bem.

SVJ: Qual é o papel dos espaços independentes no panorama da arte contemporânea portuguesa?

EM: Este tipo de acção protagonizada pelos artistas não é nenhuma novidade, todo o século XX é atravessado por estas atitudes e por todas as questões que levantam. Tem muito a ver com a forma como as novas gerações de artistas encontram organizado o sistema artístico… Elitista, conservador, desfasado no tempo. E consequentemente, o poder e o controle sobre as obras dos artistas, que os autores reivindicam cada vez mais para si, entram em rota de colisão, por eles não se reverem nas instituições e por não encontrarem nelas um espaço de recepção para os seus trabalhos.

Também  as  práticas artísticas mais inovadoras introduzidas no seio das vanguardas do século XX, tal como as práticas artísticas que as novas tecnologias vieram possibilitar, acabaram por acrescentar mais dados a este fenómeno. Em muitos casos, como na Land Art, não se encontraram sequer possibilidades de realizar os projectos entre paredes.

No nosso caso, ou seja a partir dos anos noventa, esta realidade tornou-se mesmo incontornável… E os projectos e artistas que há pouco enunciei são apenas um número representativo de todos aqueles que protagonizaram esses espaços. E pese embora, os seus diferentes objectivos e as características singulares dos seus espaços, em todos eles foram os artistas que controlaram a sua obra e a sua produção, dessa maneira resistindo ao gosto e às exigências do mercado,  às linhas orientadoras e dominantes que regem a vida cultural… e, sobretudo, possibilitam um espaço de experimentação e reflexão com a qual o artista se identifica mais.

SVJ: Considera que o artista tem hoje um papel claro na sociedade?

EM: Sinceramente não sei. Mas interessa-me pensar isso.

SVJ: Quais são as condições ideais para um artista trabalhar no panorama artístico português?

EM: Bem… Uma boa dose de paciência, teimosia e cheques pré-datados.

SVJ: Pode falar-me dos seus próximos projectos?

EM: Estou neste momento a preparar com os meus amigos do Salão Olímpico um projecto co-produzido pelo Centro Cultural Vila Flor e o Museu de Serralves  que irá acontecer em Setembro e Outubro deste ano em Guimarães e em Coimbra, no Pavilhão de Portugal. Nele irão participar cerca de vintes autores da nossa geração, e vai ser também possível ver alguma da produção artística ligada à performance, à vídeo-arte, à banda desenhada e à música. E conta ainda com a edição de um livro.

Continuar a ler: Sandra Vieira Jurgens_Eduardo Matos_arqa 39

A ACÇÃO DO ARTISTA-COMISSÁRIO


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «A Acção do Artista-Comissário», in Marte, n. 2– Legitimação na Arte, Setembro 2006, pp. 90-92).


Época marcada no domínio da arte contemporânea pelo lançamento de muitas iniciativas e exposições artísticas de carácter independente em relação ao campo galerístico e à acção desencadeada pelas grandes instituições culturais, os anos 90 são considerados como uma fase emblemática no que diz respeito à intervenção programática dos artistas plásticos na promoção pública da sua actividade artística.

Internacionalmente, este fenómeno ficou ligado à realização da exposição «Freeze» (Port of London Autority Building, Londres), no final da década de oitenta, onde o artista Damien Hirst reuniu um grupo de 16 estudantes e recém-licenciados do Goldsimths College. A mostra foi pouco visitada e escassamente criticada, mas veio a tornar-se o símbolo da reabilitação de estratégias com vista à apresentação pública de um segmento da actividade artística, inicialmente não inserido nos circuitos de mercado, e à afirmação de modelos não convencionais de circulação da produção artística.

Em Portugal, este fenómeno surge associado a uma nova geração de artistas que procura associar a sua actividade artística ao lançamento de projectos de comissariado individuais e de autoria colectiva, mantendo o desejo de alterar os parâmetros em que habitualmente decorriam a exibição e a recepção do fenómeno artístico. É nestas circunstâncias que tem lugar a reapropriação dos meios de produção e a realização de eventos que receberam o rótulo de exposições “alternativas”, por serem de concepção e gestão relativa ou totalmente independente das entidades normalmente responsáveis pela sua realização, e que, financiadas por dinheiros públicos ou privados, tinham em comum prescindir, por opção ou sem ela, do factor de mediação.

À semelhança do que acontece com a orientação da actividade do comissário independente, a natureza da prática curatorial dos artistas está ligada à realização de mostras desencadeadas por iniciativa própria e a formas de organização mais autónomas em relação às redes convencionais de exibição e circulação do trabalho artístico. De entre as motivações e razões para seguirem a actividade de comissariado paralelemente à sua actividade artística, podemos salientar: a necessidade de legitimar o seu próprio trabalho e encetar um esforço auto-promocional através da divulgação e exibição de trabalhos da sua geração; a possibilidade de intervir mais activamente em outros sectores do campo artístico, de modo a fomentar e consolidar a democratização e a dinamização dos canais da produção e recepção artística.

Pautado pelo desenvolvimento de uma análise crítica em relação às lógicas de actuação dos agentes e mediadores culturais, o movimento alternativo pauta-se e pelo delineamento de um quadro de intervenções que poderá ser idealmente encarado como uma zona protegida de criatividade e de liberdade para o artista, estando indissociavelmente ligado à emergência de percursos artísticos não legitimados pelos mediadores convencionais (crítica, comissários) e pelos espaços museológicos e galerísticos.

Prescindindo da mediação, o destaque vai para a constituição informal de grupos e para o desenvolvimento de redes de solidariedade e de cumplicidade baseadas na lógica da afectividade e em proximidades de cariz estético. A esse título importa salientar a actividade artística e curatorial de Paulo Mendes, Alexandre Estrela, Miguel Soares, João Fonte Santa e ainda o caso singular da formação Autores em Movimento, uma reunião coordenada por Pedro Cabral Santo, José Guerra, Paulo Carmona e Tiago Batista, que rejeitou de forma determinada a noção de colectivo, grupo ou movimento organizado para definir a sua acção, mas que ainda assim assumiu, nesses anos, segundo modos variáveis e singulares, a dimensão comunitária de intervenção artística. (…)

Continuar a ler em: SVJ_Artista-comissário_Marte

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