Obras Políticas de Thomas Schütte


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Consciência cívica: Thomas Schütte», in L+Arte, n. 16, Setembro 2005, p. 64-65).


Crítica da exposição Obras Políticas de Thomas Schütte no Museu de Serralves, entre Julho e 25 de Setembro de 2005.

Thomas Schütte, que foi recentemente premiado com o Leão de Ouro da 51ª Bienal de Veneza pela sua participação na mostra A Experiência da Arte, apresenta no Museu de Serralves um conjunto de trabalhos numa exposição comissariada por Ulrich Loocke. Como o seu título indica, Obras Políticas é uma exposição que surge essencialmente dedicada a trabalhos de dimensão política, reveladores de um campo particular da sua produção que tem permanecido uma zona reservada do trabalho deste artista alemão.

Protagonista da cena artística contemporânea, Thomas Schütte vem desenvolvendo desde os anos setenta um trabalho que não pode ser facilmente classificado num estilo particular. Ao longo de trinta anos produziu obras que nunca restringem o seu campo de actuação a um modelo estilístico ou temático – a diversidade de formas e meios que utiliza permitem-lhe não se deixar confinar a um programa de interesses definido, ou associado a vias de pesquisa que já tenha explorado.

Assim, se as esculturas monumentais de nus femininos que apresenta no Pavilhão de Itália em Veneza remetem-nos por exemplo para o âmbito da escultura de feição clássica, evidenciando a reactualização de modelos do passado, já no conjunto de trabalhos que compõem a mostra patente no Museu de Serralves Schütte revela uma pesquisa de trabalho mais interventiva, onde prevalece o comentário a situações sociopolíticas contemporâneas.

Na sala de entrada estão dispostos trabalhos recentes do artista, como Efficiency Men (Homens-Eficiência) e Tree Capacity Men (Três Homens- Capacidade), que apresentam uma incrível visão sobre a dimensão enigmática, entre o humano e inumano, vivo e inanimado, destes habitantes do mundo. São peças de grande dimensão, formadas por figuras masculinas de rostos grotescos, cujo corpo se reduz a um suporte estrutural que evoca a condição funcional destes seres sujeitos à condição de máquina-ferramenta. Igualmente perturbantes são os trabalhos que compõem a série fotográfica Innocenti (1994), a qual alinha cerca de trinta retratos de uma multiplicidade de criaturas de feições deformadas, que se apresentam como corpos habitados.

Nas salas seguintes revelam-se obras de todos os períodos da produção do autor, assinalando-se a referência directa à História recente  (a Segunda Guerra Mundial, a primeira Guerra do Golfo, o 11 de Setembro) e o tratamento de temas universais (a guerra, o amor).

No seu conjunto a exposição dá a ver trabalhos mais e menos conhecidos do autor, e permite contrariar a visão redutora que se tem criado em torno da nomeada “arte política”. Como demonstra a obra política de Thomas Schütte, trata-se de uma atitude que não se cumpre a afirmar uma perspectiva crítica gratuita, mas a trazer para o centro do debate aspectos de consciência histórica, política, de cidadania e humanidade, que nos ajudam a reflectir sobre fenómenos extremos (o totalitarismo nazista, o terrorismo) ou banais, como a corrupção.

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