Entrevista a JOÃO MARIA GUSMÃO E PEDRO PAIVA

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «João Maria Gusmão/Pedro Paiva». In: arq./a: Arquitectura e Arte, n. 31, Maio/Junho 2005, pp. 94-99. )

João Maria Gusmão (Lisboa, 1979) e Pedro Paiva (Lisboa, 1977) desenvolvem os seus projectos artísticos no campo da fotografia e do filme de 16 mm e no domínio da instalação, com a apresentação de projecções de vídeos e de diapositivos. Começaram a expor os trabalhos realizados em conjunto em 2001. Recentemente, os dois artistas venceram a 5ª edição do Prémio Novos Artistas, instituído pela EDP (Electricidade de Portugal), e exibiram um conjunto de trabalhos intitulado Intrusão: The Red Square no Museu do Chiado.

Sandra Vieira Jürgens: Vocês trabalham em parceria desde 2001. Como é que isso aconteceu?
Pedro Paiva: Começou no âmbito escolar, quando andávamos no terceiro ano do curso de pintura. Foi um encontro feliz porque entretanto eu tinha passado de escultura para pintura e integrei facilmente um grupo de colegas que já se davam muito bem na altura. O processo de nos conhecermos até começarmos a trabalhar foi súbito, muito rápido, porque encontrámos logo à partida uma série de cruzamentos e de interesses, principalmente literários, que proporcionaram o desenvolvimento das primeiras experiências. A primeira experiência foi um fracasso. Produzimos um vídeo no âmbito de uma avaliação em pintura no terceiro ano que era uma narrativa. Contava uma história muito lírica, de encontros e desencontros, de separações…
João Maria Gusmão: Era tudo histórias de amor. PP – Não era de amor. JMG- Não era de amor? PP – Mas havia. JMG – Encontros, desencontros. Era acerca do amor com certeza.

SVJ: Era um trabalho muito escolar?
JMG: Não! Aquilo foi chumbado, não era escolar.
PP: Mas esse primeiro trabalho que resultou num mau trabalho, não foi motivo para desistirmos e deixarmos de desenvolver o que nos interessava em trabalhos posteriores. Mais tarde, em 2001, organizei a exposição InMemory na Zé dos Bois, e aí deu-se a primeira aparição de trabalho realizado em conjunto. Mas nessa altura mostrámos peças individuais.
JMG: E tínhamos outras peças colectivas que não foram feitas para essa ocasião, mas dentro do âmbito escolar que já não tinham constituído um fracasso tão evidente como a anterior. Até foi um grande sucesso.
PP: Sim, as peças posteriores foram um grande sucesso.
JMG: A seguir à exposição In Memory, comissariada pelo Pedro, estivemos nas Tercenas, e foi realmente aí que conseguimos organizar-nos de uma forma não relacionada com a escola, ou pelo menos ter aquela sensação que é muito difícil; nós estávamos no quarto ano nessa altura, a fazer meios anos, e ao mesmo tempo nas Tercenas e tínhamos que lidar com condições físicas que já não eram a escola. Portanto as nossas propostas já não eram apresentadas para a Universidade até porque todo o nosso empreendimento saía fora do âmbito curricular. E isto foi um marco muito importante para nós: as Tercenas do Marquês e o projecto DeParamnésia.

SVJ: Quais foram as principais razões para terem continuado a prosseguir em parceria? Em que aspectos se complementam e de que maneira isso surge reflectido nos trabalhos que realizam?
JMG: Acho que passámos por várias fases, fases essas muito diferentes. Acho que quando avançámos com o projecto das Tercenas, participávamos os dois numa espécie de ideia não autoral; uma noção de disseminação de identidade. Tratava-se de uma intenção muito presente em nós. Estávamos a trabalhar sobre questões da percepção e especificamente sobre uma percepção diferida, qualquer coisa no seguimento de Bergson, do seu entendimento particular do fenómeno da Paramnésia, que seria o tal forjar de uma memória “o déjà vu”. Nós estávamos a trabalhar numa extra-percepção, qualquer coisa que figurava como falha e que pretendíamos relacionar a um sentido existencial da descoberta da própria percepção, neste caso o visível. Todavia, são figuras com as quais lidamos actualmente como temas das propostas da arte contemporânea.
PP: Para além disso também prevalecia essa componente ética que reforçava uma cumplicidade de trabalho, essa tendência para não nos circunscrevermos numa posição estritamente autoral. Ou seja, constituía uma mais valia o facto de estarmos a trabalhar a dois, de pudermos discutir e avançarmos em todos os aspectos, até no aspecto de produção.
JMG: A circulação de conhecimento: eu passava textos ao Pedro, o Pedro passava-me textos, o Pedro tinha uma ideia, e eu tinha uma mais ideia sobre a dele, e o “mais” era sempre prevalente, nunca havia uma coisa no lixo. Não havia a questão de um de nós propor qualquer coisa definitiva; era sempre qualquer coisa que para o outro surgia com uma intensidade e que havia de produzir uma outra coisa mais cedo ou mais tarde. E isto dissipou-se, foi-se dissipando porque nessa altura estávamos a trabalhar sobre determinadas coisas e viemos a descobrir e a aprofundar outras questões. Penso que agora temos uma figura muito mais autoral, como um conjunto. Mas acho que é só uma questão de maturidade. Quer dizer, fala-se de maturidade; nós começamos a trabalhar há pouco tempo e este fenómeno do jovem artista é um figurino até extraordinariamente escolar, de entrada de autores no meio, mas de qualquer maneira isto nunca que se passou connosco. Temos vindo a criar desde 2001 as nossas próprias condições de produção, de reflexão e visibilidade. Soubemos produzir com a ZDB as exposições da DeParamnésia, construímos com o projecto do Eflúvio Magnético, apoiado na altura pela Gulbenkian e agora pelo IA, um sistema de pensamento complexo. É evidente que recorremos a estruturas e a entidades que possibilitavam a viabilidade dos projectos, todavia não são estes os meios que operam a legitimação e o reconhecimento do jovem artista. O que aconteceu foi que o nosso crescimento não teve nada a ver com esta dimensão, pois tínhamos um trabalho muito consistente antes do prémio EDP. Foi desse trabalho consistente que surgiu um convite para expormos no Museu do Chiado.

SVJ: Venceram a 5ª edição do Prémio Novos Artistas, instituído pela EDP. De que forma isso foi importante para o vosso percurso?
JMG: Fizemos uma proposta em que aproveitámos condições reais para a fazer. Realmente, a peça do pêndulo, foi uma proposta que para nós foi muito importante fazer. Mas foi uma mostra de trabalho. Não foi mais do que isso. Não produziu nada de diferenciado para além dessa peça, que era realmente uma coisa que queríamos fazer há muito tempo.
PP: Por outro lado, em termos de visibilidade houve uma alteração. Começámos a ter mais visibilidade. O que para nós não é importante; sentimo-nos muito mais atraídos por uma dimensão real de trabalho, de projecto, de envolvimento, intelectual, teórico, prático, todos os aspectos que possas imaginar. Interessa-nos muito mais o momento, quando nos apercebemos que estamos a agarrar uma exposição, quando estamos a abrir e a fechar essa chave, a desenvolver circulações de sentidos, do que propriamente a mostrar o nosso trabalho como aconteceu no CCB. Isso só tem uma importância cultural porque encaixa nesse circuito cultural. Isto só existe porque existem outras dimensões que não nos dizem respeito, dimensões que interessa realmente que existam, mas que não são propriamente do nosso interesse substancial. É evidente que é um reconhecimento e nós estamos muito reconhecidos.

Continuar a ler: Sandra Vieira Jürgens_JMG+PP_arqa_31

Anúncios

Site no WordPress.com.