Alice Gerinhas_War and Love

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Nós, War & Love». In: Alice Geirinhas: War & Love, Oeiras, Galeria 24b [Catálogo], 2005).

 

Quando olhamos para as obras de Alice Geirinhas, o primeiro dado a reter é a falta de realismo do seu registo; a artista serve-se da fotografia, de reproduções de imagens de guerra para realizar um trabalho que se apresenta como resultado da apropriação e deslocação destas imagens. Alice Geirinhas não parte da tela em branco, cita imagens, trabalha sobre aquelas que já existem. Assim ao actuar no espaço da apropriação, a artista aproxima-se do espectador, e situa-se ao nosso lado enquanto observadora dos originais. Encurta a distância tradicional entre o artista e o público, mas também faz a mediação. O anonimato é relativo, já que a sua presença reconhece-se pela intervenção plástica que realiza. No processo de trabalho a artista parte das fotografias e por intermédio da sua prática pictórica vai camuflando a imagem original, torna essas imagens genéricas, distancia-se delas como se a sua intenção não fosse sublinhar o choque e o estremecimento que alguma vez causaram. A sua memória é evocada, mas a aparência é discreta, de modo a não reabilitar as emoções a que estão associadas. O desejo da artista é criar relações de sentido a partir dessas imagens recontextualizadas, o que certamente exige o conhecimento da palavra, do contexto para o qual nos remetem. A legenda faz alusão à sua história e ajuda-nos a situá-las. O propósito da sua intervenção artística é suscitar a reflexão.

Na parede da galeria, acompanhando a exposição das telas, revelam-se fragmentos extraídos da História das Mil e Uma Noites, que contam a história de Xerazade, uma sobrevivente e heroína, que através da palavra e da sedução, impediu a morte de outras mulheres e a sua própria morte. Como relacionar esta história com estas imagens de guerra?

Que leitura nos é suscitada quando vemos lado a lado, telas como Medo, Mãe e Tereska, que evocam a memória colectiva, mas também Alice, Camila e Clara, o auto-retrato da artista com as filhas deitadas no sofá, que desde logo associamos a uma dimensão mais privada e íntima deste pequeno diário feito de imagens. Um diário que nos leva ao encontro da guerra e do amor, assim como à evocação da tranquilidade e da serenidade, e sobretudo a um ponto de chegada que nos faz pensar. E nós, podemos fazer alguma coisa?

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João Maria Gusmão and Pedro Paiva: 53. International Art Exhibition – La Biennale di Venezia


(Sandra Vieira Jürgens, «João Maria Gusmão & Pedro Paiva», Empiricisms. New documental languages in Spain and Portugal, LisboaPhoto, 2005, pp. 94-95).


(Sandra Vieira Jürgens, «João Maria Gusmão + Pedro Paiva», Experiments and Observations on Different Kinds of Air., 53. International Art Exhibition – La Biennale di Venezia, DGArtes, Lisboa, 2009, p. lvii).

 

João Maria Gusmão (born Lisbon, 1979) and Pedro Paiva (born Lisbon, 1977) both graduated with a degree in Visual Arts – Painting from the Faculty of Fine Arts of the University of Lisbon, and began displaying their work in partnership at an exhibition entitled InMemory, at Lisbon’s Zé dos Bois Gallery, in 2001. Their careers have since remained connected to this institution. In the following three years, highlights of the exhibitions staged by the duo included projects such as DeParamnésia (parts 1, 2 and 3, in 2001 and 2002), Air Liquide (2002), O Ouro dos Idiotas (2003), Matéria Imparticulada (2004) and Eflúvio Magnético: O Nome do Fenómeno (2004). In 2005, the two artists were awarded the 5th annual EDP New Artists Prize and exhibited a set of works entitled Intrusão: The Red Square at the National Museum of Contemporary Art – Chiado Museum. In the following year, they presented Eflúvio Magnético (2ª Parte) at the Zé dos Bois Gallery and Eflúvio Magnético (Síntese) at the Guarda City Theatre. In 2007, their first individual international exhibition took place with the exhibition Crevasse, at the Castilla y León Museum of Contemporary Art (Spain), leading to various other individual exhibitions throughout 2008, such as Horizonte de Acontecimientos at the Madrid Matadero venue (Spain), Hydraulics of Solids at the Adam Art Gallery at Victoria University of Wellington (New Zealand) and Passengers: 1.7 at the CCA Wattis Institute for Contemporary Arts, San Francisco (United States). That same year also saw Meteorítica at the Graça Brandão Gallery in Lisbon and the Fortes Vilaça Gallery in São Paulo, Abissologia at the Cordoaria Nacional / Zé dos Bois Gallery in addition to Articulações in the Minas de Salgema, Loulé. In 2009, they presented their work About The Presence of Things at the Kunstverein Hannover (Germany). Their work has also been widely included in collective exhibitions as from 2001, with the following among the higher profile examples, in 2006, at the 27th São Paulo Biennial (Brazil), in 2007 at the Luanda Triennial (Angola) and at the 6th Mercosul Biennial, Porto Alegre (Brazil) and, in 2008, at Manifesta 7 – European Biennial of Contemporary Art, Rovereto (Italy).

Gusmão and Paiva undertake their artistic projects within the fields of photography and 16 mm film as well as that of installation. Their work is partially dominated by themes within the ambit of experimental research, technique, invention, the process of discovery with risk factors portrayed in a highly characteristic style. The materials that they use are simple with the technology incorporated handled without excessive sophistication. The effects and phenomenon transposed into the artistic field are carried out in such a way that they promote a sense of uncertainty regarding the authenticity of that seen, while furthermore also carrying an additional note of irony and the absurd, which also represents another of the hallmarks of their joint work.

A fundamental aspect to their intervention also relates to the writing produced to accompany the output of the two artists. In this area, mention must be made as to the theoretical reflection developed around the subjects that they seek to approach and the approximation made not only to the field of literature but also the various branches of philosophy, aesthetics and physics. They also incorporate literary material and, in much of their thinking, a preponderant role is attributed to questions that take us back to the work of authors such as Bergson, Nietzsche and Heidegger. Alfred Jarry, inventor of “‘pataphysics”, defined as “the science of imaginary solutions”, also features as a landmark among the omnipresent interests running throughout the work of João Maria Gusmão and Pedro Paiva: experimentation, the relationship between science, fiction and poetry.

JOÃO TABARRA_LisboaPhoto


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «João Tabarra», Empirismos. Novas linguagens documentais em Espanha e Portugal, LisboaPhoto/CML, 2005, pp. 142-143).

 

João Tabarra (Lisboa, 1966) estudou fotografia no final dos anos oitenta e expõe individualmente desde 1991, tendo participado em inúmeras exposições em Portugal e em mostras e bienais  internacionais. Desde essa data mantém uma actividade artística que abrange as áreas da fotografia, do vídeo e da instalação, sendo estes os meios preferenciais para desenvolver uma intervenção artística que tanto aborda questões fundamentais no contexto da sociedade contemporânea – a economia global, a política, o domínio da existência e a condição do indivíduo no seio da actual realidade social e cultural – como aspectos que dizem particular respeito ao valor da imagem numa era dominada pelos mass media e pelas mutações operadas pela massificação. (…)

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JOÃO MARIA GUSMÃO E PEDRO PAIVA_LisboaPhoto

João Maria Gusmão + Pedro Paiva_O encapuçado_2004

João Maria Gusmão + Pedro Paiva, O encapuçado, 2004


(Original: Sandra Vieira Jürgens, «João Maria Gusmão & Pedro Paiva», Empirismos. Novas linguagens documentais em Espanha e Portugal, LisboaPhoto, 2005, pp. 94-95).

(Reprodução: Sandra Vieira Jürgens, «Pedro Paiva e João Maria Gusmão» in Ricardo Nicolau, Fotografia na Arte – De Ferramenta a Paradigma, Jornal PÚBLICO e Fundação de Serralves, 2006, p. 36).


João Maria Gusmão (Lisboa, 1979) e Pedro Paiva (Lisboa, 1977) frequentaram conjuntamente o curso de Pintura da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, e começaram a expor os trabalhos realizados em parceria em 2001, numa exposição intitulada InMemory, na Galeria Zé dos Bois. Nos três anos seguintes, o percurso expositivo da dupla esteve marcado pela exibição de projectos como De Paramnésia (Partes 1, 2 e 3, em 2002), Air Liquide (2002), O Ouro dos Idiotas (2003), Eflúvio Magnético: o Nome do Fenómeno (2004) e Matéria Imparticulada (2004). Recentemente, os dois artistas venceram a 5ª edição do Prémio Novos Artistas, instituído pela EDP (Electricidade de Portugal), e exibem um conjunto de trabalhos intitulado Intrusão: The Red Square no Museu do Chiado (2005).

Gusmão e Paiva desenvolvem os seus projectos artísticos no campo da fotografia e do filme de 16 mm e no domínio da instalação, com a apresentação de projecções de vídeos e de diapositivos. Nestas áreas de actuação constroem situações e narrativas que tomam a forma de pequenas ficções, onde exploram a fusão entre a arte e a ciência. A sua obra é, em parte dominada, por temas onde o âmbito de investigação experimental, a técnica, a invenção, o processo de descoberta, ou o factor de risco, surgem retratados de uma forma muito característica. Filmam e tiram fotografias em espaços naturais, em paisagens de montanha e locais longínquos, distanciando-se dos cenários dos modernos laboratórios onde os processos experimentais e a exploração do mundo hoje acontecem. Os materiais que utilizam são simples, a tecnologia é tratada sem meios sofisticados, e os efeitos e fenómenos que transpõe para o meio artístico são concretizados de modo bizarro e misterioso, sem que diminua em nada a impressão produzida. Os seus trabalhos são desconcertantes, promovem uma incerteza relativamente à autenticidade do que foi visto e comportam, além disso, uma outra nota de ironia e de absurdo que são também traços característicos da obra conjunta dos dois autores. (…)

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