Entrevista a VASCO ARAÚJO

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Vasco Araújo». In: arq./a: Arquitectura e Arte, n. 21, Setembro/Outubro 2003, pp. 86-89.)

A ópera, o canto e a cultura clássica são peças fundamentais no trabalho de Vasco Araújo. São referências que sugerem ao artista continuidades no tempo e pontos fixos na trama histórica que une as épocas e os homens. E são, simultaneamente, os marcos da cultura onde bem se reflecte os fios complexos que envolvem o sentir humano e as fragilidades de todo o pensamento centrado em antinomias e lógicas de sentido único. Vasco Araújo foi distinguido com o Prémio Novos Artistas – EDP Artes, em 2002.

Sandra Vieira Jürgens – No seu corpo de trabalho mantém uma forte ligação com a ópera. Como é que chegou a interessar-te por esse campo artístico?

Vasco Araújo: A ópera surgiu de uma forma muito engraçada. Lembro-me, teria eu 10 anos, de  assistir a uma ópera na televisão. Era a Aida. Para mim foi marcante, sobretudo por ser a Aida, o esplendor máximo da ópera. Fiquei completamente fascinado! E, apesar de gostar de outro tipo de música, a partir daí, fui descobrindo a ópera, não como género musical, mas como espectáculo total que é. Passei a ouvir ópera constantemente e, pelo facto de gostar tanto e de acompanhar os discos, fui construindo a voz. A minha voz foi aumentando e as notas foram surgindo cada vez mais. Entretanto, vou para as Belas Artes. Já queria ser escultor desde pequeno. E também cantor. Até tentei ir para o conservatório, mas não pude entrar porque não sabia ler música.  Só mais tarde, é que encontro um professor particular de canto que me convence a ir para o conservatório. Isso coincide com a altura em que estava a acabar as Belas Artes. Acabo as Belas Artes, faço o exame de admissão e chego a entrar no Conservatório. Fiquei feliz da vida a achar que ia ser cantor e não artista.  De facto, sente-se um enorme vazio quando se sai das Belas Artes, porque ninguém nos prepara para o mundo e para ser artista. E ser artista não é ter uma galeria ou fazer uma exposição num museu ou em espaços expositivos. Ser artista é um estado de espírito ou uma crença interior de o ser. Fui então para o Conservatório mas, ao fim de três meses, percebi que já era tarde e que não era isso o que queria. Tinha 24 ou 25 anos na altura, o que era complicado para o canto, que exige pelo menos 8 anos de estudos. Entretanto, apesar de ter dito que não queria ser artista,  resolvi ir para a Maumaus. E penso que foi aí que tomei consciência sobre o que era ser artista e sobre o que queria fazer como artista.

SVJ: Para além desse percurso, de onde vem o interesse em associar esse universo à sua actividade artística?

VA: Foi derivado ao facto de ter tido essa crença de ser cantor e ter percebido o que era a ópera, os seus mecanismos, a sua história, o que representam as diversas vozes das personagens naquele teatro cantado, que quis trabalhar sobre a ópera.  Não sobre a ópera, porque acho que essa ideia está errada. A ópera é um meio de eu chegar a outras situações. Ando à procura de personagens que digam qualquer coisa, não propriamente da ópera em si. O que mais me interessa é transmitir sentimentos e que as pessoas se questionem. E não é o questionar do tipo concordo ou não concordo, gosto ou não gosto. É um questionar interior, de um outro eu ou dos vários eus que nós temos. Ao transformar-me em Norma ou em Tosca, quero que as pessoas não fiquem standardizadas num modelo que a sociedade, que a família ou a lei lhes impõe. Apetece-me que as pessoas reflictam sobre as questões – o que é que eu sou, o que é que eu estou aqui a fazer, porque é que eu me chamo assim, porque é que eu sou artista, porque é que eu sou engenheiro, advogado…? Porque é que eu amo ou não amo, porque é que eu sou arrogante ou não ? Que personagem é esta que eu represento? Será que esta personagem é válida ou tenho uma outra personagem que pode ser melhor ou pior do que esta? De certa forma, tento construir as minhas peças como se fossem quadros vivos em que as pessoas se confrontam com aquelas situações. Acho que tentei fazer isso numa peça. No Duettino, que é uma peça complicada porque as pessoas podem não saber quem é o D. Giovanni, podem nunca ter ouvido, não reconhecer… Mas o que me interessa nessa peça não é que as pessoas entendam o texto. Se perceberem tanto melhor, mas o mais importante é a angústia daquela personagem que tem dentro dela duas ou três personagens. E interessa-me que isso saia pela voz. Para mim a voz é a coisa mais importante que nós temos, é mais importante que ver, que ouvir. A voz é o poder máximo que o ser humano tem, é aquilo que nos dá força e poder. Portanto no Duettino essa questão da voz funciona como o dar voz a todos aqueles que estão dentro de um único, que podemos ser todos nós.  Nós interagimos uns com os outros, se estiver com uma pessoa durante muito tempo posso ficar com tiques dela e captar alguns traços da sua personalidade. Ela influencia-me porque gosto do seu carácter e eu também posso influenciá-la. São essas interacções que quero expressar nas artes plásticas.

Continuar a ler: Sandra Vieira Jürgens_Vasco Araújo_Arqa_21

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