Pedro Cabral Santo

Pedro Cabral Santo, Deep Blue, 1999.

 

Características dos projectos e do trabalho plástico de Pedro Cabral Santo são o seu propósito experimental e o valor atribuído à combinação de meios técnicos e de referências culturais que permitam desencadear a reflexão em torno dos diferentes temas convocados. Assim, durante o processo de realização dos seus projectos, Cabral Santo demonstra um particular interesse em explorar as diferentes linguagens e os vários mecanismos funcionais que podem intervir na execução dos seus objectos escultóricos, e sobretudo em desenvolver soluções estéticas e formais que sublinhem a eficácia e o impacte do seu domínio na constituição de um corpo ou de uma imagem geradora de sentido. Daí decorre, por exemplo, o papel preponderante conferido aos materiais que emprega, a maior parte das vezes materiais não convencionais, escolhidos mediante a análise e compreensão das suas qualidades e dos efeitos que servem a resolução e a coerência plástica de cada peça.

Por exemplo, do conjunto de peças que produziu recentemente podemos salientar S/Título (dedicated to little Vasco who will be born soon) de 2001, oportunidade de verificar como Pedro Cabral Santo remete o espectador para a possibilidade de o objecto escultural funcionar como um texto. Trata-se de uma instalação escultórica de parede, cuja realização comportou a composição caligráfica da palavra “Empty” – a partir de segmentos de uma mangueira de borracha, em cujos estreitos tubos circula ininterruptamente uma solução líquida (composta por vodka com laranja e “dry-glo acrilic”), por acção de um sistema de compressão de ar e de drenagem. Todavia, o que à primeira vista parece ser o elemento central desta obra, a palavra escrita, mais não é do que uma das referências que se apresentam a um acto de leitura estabelecido a partir da reconstituição de um jogo de linguagem. Um jogo que renuncia a fixar-se na interpretação literal da palavra “vazio”, e que funciona através da reconstituição do elo formado pela combinação de referências. Neste caso referências fundamentalmente contraditórias, dado compreenderem alusões que tornam patente a relação díspar entre diferentes realidades, como o cheio e vazio ou o sólido e líquido.

Estamos assim perante um exercício que visa fazer ressaltar um princípio dualista. Aquele que, estando aqui presente através de diferentes qualidades e estados da matéria, tem a particularidade de encontrar expressão noutros trabalhos de Cabral Santo, mediante a conjugação de outros enunciados. Recuando um pouco mais no tempo, podemos ir ao encontro de Óxido (PlayEurope) de 1996, obra que tornou conhecido o seu trabalho, e onde o artista invoca questões políticas e aspectos socioculturais da actualidade, relacionando a aparente dimensão monumental da União Europeia com a situação de alguns territórios periféricos. E aparente monumentalidade porque, não obstante a sua potente edificação em altura, o que acaba por ressaltar é uma estrutura frágil e complexa feita de “matutazos”. Tal acontece devido à forma peculiar desses objectos lúdicos, mas sobretudo ao facto da sua presença assinalar outros pontos de interesse. Por exemplo, no que diz respeito ao plano simbólico, a sua estreita ligação com o mundo da fantasia e, por seu turno, a relação paradoxal e o contraste irónico que ajudam a veicular, quando se analisa a perspectiva vertiginosa e a óbvia tensão que se desenham sobre a paisagem retratada: a distância que separa o Ocidente dos países do Terceiro Mundo, representados na peça por pequenas bandeiras que circundam a edificação, e a pesada reprodução das desigualdades que se associam ao fenómeno da migração, como as condições precárias em que vivem nos países de acolhimento, a xenofobia e também o populismo das opiniões a respeito do excesso de estrangeiros. Realidades que não são desconhecidas nem de Mr. Magoo e Goofy, assim o indicam os textos assinados e plagiados pelas personagens retratadas nos “matutazos”, que Cabral Santo reuniu no catálogo da exposição Jetlag (Reitoria da Universidade de Lisboa, 1997), onde a peça foi apresentada pela primeira vez.

É com semelhante à vontade que frequentemente Cabral Santo trabalha em vídeo com referências muito directas à cultura popular. É o caso do seu vídeo Even a super hero needs a place to live, to talk about his work and a life to live, de 2001, no qual se ocupa de três conhecidas personagens da BD para fixar sob um grande plano, que sublinha a proximidade e o lado mais pessoal de cada uma das três figuras, os apontamentos e as reflexões pessoais que nos vêm surpreender com uma percepção inusitada sobre a vida de cada herói. É que se esperávamos pela revelação dos feitos memoráveis e de pequenas histórias contadas na versão oficial para grande consumo, o que vamos paulatinamente partilhando através de cada monólogo registado frente à câmara, é a naturalidade demonstrada na abordagem de muitos aspectos da existência humana.

Por último, refira-se que a força metafórica da narrativa encontra uma vez mais expressão na peça vídeo em exposição, The Superabbit (your moments, your music), de 2002, um trabalho onde somos convidados a acompanhar a viagem realizada por um único protagonista – um coelho muito especial que se move a pilhas alcalinas – e a seguir de perto as considerações que vai expondo, tanto em alusão às reflexões ensaísticas de T.S. Eliot como a evidências irónicas que não podem ser totalmente estranhas ao mundo da arte e da cultura. Para além de constituir um momento central no trabalho de reconstrução de mundos ficcionais que Cabral Santo opera, e que enriquece sempre de evocações metafóricas, esta obra pode considerar-se um testemunho paradoxal das pesquisas que ele tem vindo a desenvolver em torno duma profusão de linguagens e códigos de representação, que vão da escrita à escultura, da pintura ao cinema, do teatro à televisão, da banda desenhada à animação. Um exercício no qual não se limita a citar essas linguagens, mas onde põe em evidência as características dos vários meios referenciados e explora processos de associação muito significativos. Como aquele que em Superabbit nos coloca em presença de elementos textuais e icónicos no interior da mesma imagem (assim reproduzindo formatos gráficos televisivos), cujo efeito é a fragmentação dos conteúdos narrativos e a evidenciação da estrutura composta do plano videográfico.

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