ACÇÃO DIRECTA. Entrevista a Paulo Mendes

Paulo Mendes, S/T (A Ninhada), 1993.

(Original: Sandra Vieira Jürgens, «Paulo Mendes: Acção Directa», arq: Arquitectura e Arte, n. 1, Maio/Junho 2000, pp. 72-75).


Paulo Mendes tem desenvolvido uma prática artística que foge à lógica e às estratégias discursivas dos meios artísticos convencionais. Um percurso definido por temáticas de âmbito reflexivo e sociológico que sublinha a crescente visibilidade e afirmação da arte portuguesa dos anos 90.

SVJ: Na tua última exposição, na Galeria João Graça, #2 Kaleidoscope Frenzy, retomas no teu trabalho o comentário sociológico.  Por outro lado na peça apresentada na exposição Espaço 1999 manténs uma aproximação mais crítica ao sistema e à prática artística em Portugal. Qual é o elemento unificador?

PM: O meu trabalho começa por ser em 91 um discurso centrado na reflexão sobre o sistema artístico português. Trata-se de um núcleo forte de peças, presentes nas minhas três primeiras exposições individuais, e que tem a sua continuidade na peça que esteve na exposição Ruído, Geração de 90 – trabalho de campo e ainda numa outra que para mim funciona como um ponto final, Vanitas – Retrato da minha geração, presente na exposição Espaço 1999. Por outro lado, a crítica social surge com a peça S/T (A Ninhada) de 93 que comenta a questão do prolongamento da direita no poder e o seu discurso económico. Depois há um espécie de subdivisão que surge no tipo de trabalhos em que eu uso brinquedos, uma série de instalações que começam em 95 com Heaven, Inc.. O trabalho tem sempre um carácter muito irónico, começou por ser muito limpo e esteticista, digamos muito museográfico, e depois, ao longo dos anos, foi evoluindo nessas várias cambiantes para um tipo de discurso mais ruidoso, muito mais sujo e caótico. À posteriori diria que essas peças mais antigas se assemelhavam mais às peças de museu, eram demasiado organizadas e objectivas. E não renego isso porque muitas vezes a melhor maneira de ser subtil é ser-se óbvio, como dizia Billy Wilder.

SVJ: E em termos da ocupação do espaço, também acabaste por rejeitar a noção de “cubo branco”, o espaço neutro da galeria?

PM: É na Heaven, Inc. que o espaço começa a ser invadido por objectos, coisas que se cruzam e que às vezes não se sabe se pertencem a uma peça ou a outra. Começa já a ter um lado mais informe, os elementos vagueiam pelo espaço e vão-se cruzando, há uma espécie de contaminação. Outra ideia importante é a questão dos sentidos, explorá-los ao máximo, não só a visão, mas também o som, o olfacto…. É a criação desse tipo de ambientes cenográficos que me interessa. Quando alguém vai ver uma instalação minha deverá ter uma experiência única, muito semelhante à vivida no cinema. É como se fosse a Rosa Púrpura do Cairo, mas em vez de o actor sair do filme é o espectador que entra numa história não linear. Cada imagem/peça pode falar por si, funciona como se fosse um plano de um filme, depois os planos todos juntos é que formam aquela fita, e aquela fita é aquela exposição. O objectivo é dar liberdade ao espectador para fazer a sua própria montagem.

SVJ: Como artista qual é o balanço que fazes da década de 90?

PM: Pelo conhecimento que tenho acerca daquilo que se passou nos anos 80 diria que uma das características da década de noventa foi a solitária auto-afirmação dos artistas. Se nos anos 80 os artistas saíam das Belas Artes e eram directamente recambiados para as galerias onde faziam pinturas como quem faz bolinhos para vender a coleccionadores ansiosos e ignorantes, a nossa geração surge com a Guerra do Golfo e com a crise económica que daí advém. As galerias deixam de apostar em pessoas mais novas e o mercado retrai-se. E aí as galerias tiveram duas opções, ou continuaram a apostar nos valores confirmados, ou então apoiaram projectos mais marginais que fugiam ao domínio dos suportes tradicionais. Foi o caso da Galeria Graça Fonseca, o que a levou obviamente a fechar a loja ao fim de alguns anos! O mercado, o coleccionismo e as instituições portuguesas não têm a mínima atenção àquilo que de novo se tenta fazer. Daí que os artistas tenham sido obrigados a autopromover-se e a organizar uma série de exposições colectivas que funcionaram como marcos fundamentais da década.

SVJ: É assim que tu começas a desenvolver um trabalho como comissário?

PM: Foi desde as Belas Artes que me apercebi que o melhor era controlar a situação e ver como tudo funcionava. Lancei revistas, cheguei a abrir uma galeria, trabalhei como produtor, comissário, designer gráfico, enfim, tentei saber como se desenvolve todo o processo. Entretanto é em 95 quando o Vitor Dinis (CAPC) me convida a fazer lá um projecto individual que eu achei que seria interessante convidar outras pessoas para trabalhar comigo. A experiência resultou. Para mim é algo que tem a ver com a minha paixão pelo cinema, ser comissário é como estar a dirigir um filme, no fundo é estar a fazer um casting com um determinado objectivo temático, cada artista tem de trabalhar para um dado papel, aí reside o prazer e o fascínio … saber se o artista X vai funcionar bem com o artista Y, como é que os trabalhos se vão relacionar e chegar a um resultado que possa ser minimamente surpreendente e estimulante para ambos.

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Paulo Mendes nasceu em 1966, em Lisboa. Estudou pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1988-93). Nos anos em que decorre a sua aprendizagem artística participa na exposição colectiva “Faltam nove para 2000” na Galeria da E.S.B.A.L. e  torna-se membro fundador e coordenador do projecto Artstrike e da Galeria Zero (1991-92). Neste espaço realiza a sua primeira exposição individual em 1992. Ainda no período inicial do seu percurso artístico mostra a sua obra em “Imagens para os 90” na Fundação de Serralves e na Culturgest (1993), e expõe individualmente na Galeria Quadrum – Do it yourself – Faça você mesmo. Igualmente significativas foram as exposições em que participa na segunda metade da década de 90. Destaca-se Espectáculo, exílio, deriva, disseminação: um projecto em torno de Guy Debord (Beja, 1995), Index 3 (Galeria João Graça, 1998) e as exposições realizadas na Galeria ZDB, X – Rated (1997), O Império Contra Ataca (1998) e, no âmbito do Festival Atlântico, Belezas Mutantes (1997) e Sensibilidade Apocalíptica (1999). Neste ano participa ainda no projecto Quartel / Arte Trabalho Revolução, e expõe colectivamente na Cesar Galeria (Ruído) e em Espaço 1999 no Museu Nacional de História Natural. Recentemente realizou também a sua quinta individual Karaoke Life Project / #2 Kaleidoscope Frenzy na Galeria João Graça. Paralelamente à sua actividade de artista plástico Paulo Mendes dedicou-se à concretização de projectos de comissariado, tendo produzido entre outros Heaven, Inc. (1995), Anatomias Contemporâneas (com Paulo Cunha e Silva), (A)Casos (&)Materiais (1998) e W.C. Container.  Foi ainda co-autor do projecto Dr. Mabuse (1994), membro fundador e co-editor da revista Número (1998) e co-autor e coordenador do projecto Índex (1998). A sua obra está representada nas seguintes colecções públicas: Fundação Serralves, Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) e Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo (MEIAC, Espanha).

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